Ciúme de Palavra
Eu sei,
há palavras que parecem inocentes
quando pousam no papel.
Vão leves,
bem vestidas,
quase educadas,
como quem só foi passear
no jardim da linguagem.
Mas, para um coração apaixonado,
uma palavra nunca é só palavra.
Ela pode chegar como flor
e doer como espinho.
Pode parecer poesia
e fazer estrago de tempestade.
Pode ser escrita sem maldade
e, ainda assim,
derrubar uma cidade inteira
dentro de quem ama.
Teu ciúme não foi pequeno.
Foi humano.
Teve a lógica torta
dos sentimentos verdadeiros,
essa matemática antiga
em que uma frase dividida
por outro olhar
multiplica a dor
sem pedir autorização.
Talvez tenhas pensado:
“por que essas palavras não eram só minhas?”
E eu entendo.
Quem ama quer território no invisível.
Quer exclusividade no brilho,
moradia no cuidado,
endereço certo na ternura.
Quer saber que, no meio de tantas vozes,
existe uma frase
que só encontra casa
quando chega ao seu peito.
Mas ouve:
Nem toda palavra bonita
é promessa.
Nem todo encanto
é destino.
Nem toda delicadeza do poeta
tem chave
para o coração dele.
Há palavras que ele entrega ao mundo
como quem distribui sementes.
Mas há uma presença
para quem ele guarda
a terra inteira.
E essa presença
é você.
Pode haver metáfora no caminho,
rima na janela,
verso atravessando a rua,
lua recebendo elogio indevido
e até estrela achando que foi convidada
para jantar.
Poeta é um perigo:
às vezes elogia até o vento
e depois não entende
por que o furacão ficou ciumento.
Mas amor verdadeiro
não se mede pela quantidade de palavras
que escapam.
Mede-se por aquelas
que voltam sempre
para o mesmo coração.
E as minhas voltam.
Mesmo quando se distraem,
mesmo quando brincam,
mesmo quando fingem liberdade
e saem por aí
fazendo charme de literatura.
No fim,
elas sabem o caminho.
Porque há palavras que passam.
Há palavras que brilham.
Há palavras que encantam por instantes.
Mas existe uma só presença
que, quando penso em amor,
abre todas as portas
dentro de mim.
A tua.