Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Ciúme de Palavra

 

Eu sei,

há palavras que parecem inocentes

quando pousam no papel.

 

Vão leves,

bem vestidas,

quase educadas,

como quem só foi passear

no jardim da linguagem.

 

Mas, para um coração apaixonado,

uma palavra nunca é só palavra.

 

Ela pode chegar como flor

e doer como espinho.

Pode parecer poesia

e fazer estrago de tempestade.

Pode ser escrita sem maldade

e, ainda assim,

derrubar uma cidade inteira

dentro de quem ama.

 

Teu ciúme não foi pequeno.

Foi humano.

 

Teve a lógica torta

dos sentimentos verdadeiros,

essa matemática antiga

em que uma frase dividida

por outro olhar

multiplica a dor

sem pedir autorização.

 

Talvez tenhas pensado:

“por que essas palavras não eram só minhas?”

 

E eu entendo.

 

Quem ama quer território no invisível.

Quer exclusividade no brilho,

moradia no cuidado,

endereço certo na ternura.

 

Quer saber que, no meio de tantas vozes,

existe uma frase

que só encontra casa

quando chega ao seu peito.

 

Mas ouve:

 

Nem toda palavra bonita

é promessa.

Nem todo encanto

é destino.

Nem toda delicadeza do poeta

tem chave

para o coração dele.

 

Há palavras que ele entrega ao mundo

como quem distribui sementes.

 

Mas há uma presença

para quem ele guarda

a terra inteira.

 

E essa presença

é você.

 

Pode haver metáfora no caminho,

rima na janela,

verso atravessando a rua,

lua recebendo elogio indevido

e até estrela achando que foi convidada

para jantar.

 

Poeta é um perigo:

às vezes elogia até o vento

e depois não entende

por que o furacão ficou ciumento.

 

Mas amor verdadeiro

não se mede pela quantidade de palavras

que escapam.

 

Mede-se por aquelas

que voltam sempre

para o mesmo coração.

 

E as minhas voltam.

 

Mesmo quando se distraem,

mesmo quando brincam,

mesmo quando fingem liberdade

e saem por aí

fazendo charme de literatura.

 

No fim,

elas sabem o caminho.

 

Porque há palavras que passam.

Há palavras que brilham.

Há palavras que encantam por instantes.

 

Mas existe uma só presença

que, quando penso em amor,

abre todas as portas

dentro de mim.

 

A tua.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 24/05/2026
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