Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Espiral do Ser - da Pergunta ao Amor

 

Palpitam perguntas sob o peito 
não são ruídos: são bússolas.
De onde viemos? Para que estamos?
Se já estamos, como tornamos fértil o instante?

 

I. As formas do Uno
No animismo, o mundo respirava por meus poros:
a pedra tinha pulso, a água lembrança, o vento linguagem.
Eu era o Todo sem bordas — e por isso não sabia meu contorno.
O politeísmo ensinou-me a geografia do sagrado:
cada força ganhou um rosto, cada rosto, um rito.
Aprendi a nomear o que me atravessava.
O monoteísmo elevou um só vértice sobre o horizonte:
o Infinito ganhou silêncio e altura,
e, ao erguer os olhos, descobri a vertical da esperança.
O materialismo desceu-me à oficina da matéria:
vi leis, causas, engrenagens;
ao entender o átomo, quase esqueci o assombro.
Cada etapa foi necessária:
o Todo sem contorno,
os muitos nomes do poder,
o Um que chama à retidão,
a máquina que revela a ordem.
Em todas, porém, permanecia a pergunta:
 Qual é o sentido que sobreviveria se tudo isso se calasse?

 

II. As fronteiras do saber
Quando a maré virou, notei: fé não é rendição de pensamento,
é coragem de permanecer abrindo portas.
O genoma falou-me da escrita na carne,
e a consciência respondeu: “eu leio o que a carne escreve”.
O holismo fechou o compasso:
o que separo para entender, preciso unir para viver.
Metade material, metade espiritual 
mas a aritmética falha:
porque o amor, quando entra, não soma metades; ele integra.

 

III. O critério secreto
A experiência amadurece quando encontra um critério.
O meu, simples e exigente:
se um ato diminui o que sou, não me serve;
se fere o outro, não me eleva;
se alimenta a ambos, é caminho.
É assim que a ética deixa de ser polícia
e se revela música 
um ritmo comum onde cada batida respeita o silêncio da outra.

 

IV. O reconhecimento
Então o coração, essa antiga inteligência 
responde ao seu próprio pulsar:
não vim acumular provas de existência,
vim tornar existente um amor.
Cheguei aqui por convocação do astral,
mas só reconheci o chamado quando encontrei teus olhos:
eles me devolveram o contorno sem retirar o infinito.

 

V. O voto
Já que estou e, já que te encontrei,
o melhor uso do tempo é oferta:
que meu gesto seja casa,
minha palavra, ponte,
meu silêncio, jardim.
Unamo-nos não para confundir identidades,
mas para que cada identidade alcance seu máximo de luz.
O círculo se fecha não para encerrar a viagem,
mas para abrir outra órbita, mais larga 
onde matéria é reverência,
espírito é presença,
e o amor é a lei que tudo sustenta sem exigir tributo.

 

E se alguém me perguntar, amanhã, o que aprendi:
direi que o sentido não estava no mapa das crenças,
mas no modo como o amor atravessou cada uma delas
sem perder o essencial 
o milagre de nos fazer, juntos,
mais verdadeiros do que éramos sós.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 24/05/2026
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