Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O Amor Quando Perde a Compostura

 

O amor, quando chega de verdade,

não vem sempre vestido de gala.

 

Às vezes aparece meio atrasado,

com o cabelo desalinhado,

uma flor cansada na mão

e aquela cara de quem ensaiou discursos lindos

mas esqueceu tudo

na hora do sorriso.

 

Porque há sorrisos

que desmontam qualquer estratégia.

O sujeito chega cheio de pose,

com a alma de terno passado,

e de repente vira criança

tentando esconder o susto

atrás de uma frase inteligente

que, claro, sai completamente errada.

 

O amor é um desastre bonito.

 

Promete compostura,

mas derruba o café.

Jura maturidade,

mas fica esperando mensagem

como quem acompanha resultado de loteria.

Diz que está tranquilo,

mas o coração lá dentro

faz reunião extraordinária

com fogos, ata, quórum

e nenhuma responsabilidade fiscal.

 

Há pessoas que chegam

e bagunçam a mobília invisível da gente.

Mudam o lugar da esperança,

trocam a senha da solidão,

abrem as janelas do peito

e ainda perguntam, com inocência criminosa:

“aconteceu alguma coisa?”

 

Aconteceu.

 

O deserto pediu demissão.

A rotina perdeu o crachá.

A tristeza colocou aviso prévio.

E a vida, essa senhora às vezes tão séria,

foi vista comprando flores

em plena terça-feira.

 

O amor, quando encontra morada,

não precisa fazer escândalo.

Ele apenas começa a existir

nos detalhes pequenos:

na vontade de contar o dia,

no riso que sobra depois da conversa,

na saudade que chega antes da despedida,

no silêncio que não pesa,

porque aprendeu a ficar de mãos dadas

sem precisar dizer nada.

 

E se alguém perguntar

por que certas presenças

fazem o mundo parecer menos difícil,

talvez a resposta seja simples:

 

algumas pessoas

não entram na vida da gente

como visita.

 

Entram como luz acesa

em casa antiga.

 

E, quando acendem,

até o coração mais cansado

finge que não estava esperando…

 

mas deixa a porta aberta.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 23/05/2026
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