O Amor Quando Perde a Compostura
O amor, quando chega de verdade,
não vem sempre vestido de gala.
Às vezes aparece meio atrasado,
com o cabelo desalinhado,
uma flor cansada na mão
e aquela cara de quem ensaiou discursos lindos
mas esqueceu tudo
na hora do sorriso.
Porque há sorrisos
que desmontam qualquer estratégia.
O sujeito chega cheio de pose,
com a alma de terno passado,
e de repente vira criança
tentando esconder o susto
atrás de uma frase inteligente
que, claro, sai completamente errada.
O amor é um desastre bonito.
Promete compostura,
mas derruba o café.
Jura maturidade,
mas fica esperando mensagem
como quem acompanha resultado de loteria.
Diz que está tranquilo,
mas o coração lá dentro
faz reunião extraordinária
com fogos, ata, quórum
e nenhuma responsabilidade fiscal.
Há pessoas que chegam
e bagunçam a mobília invisível da gente.
Mudam o lugar da esperança,
trocam a senha da solidão,
abrem as janelas do peito
e ainda perguntam, com inocência criminosa:
“aconteceu alguma coisa?”
Aconteceu.
O deserto pediu demissão.
A rotina perdeu o crachá.
A tristeza colocou aviso prévio.
E a vida, essa senhora às vezes tão séria,
foi vista comprando flores
em plena terça-feira.
O amor, quando encontra morada,
não precisa fazer escândalo.
Ele apenas começa a existir
nos detalhes pequenos:
na vontade de contar o dia,
no riso que sobra depois da conversa,
na saudade que chega antes da despedida,
no silêncio que não pesa,
porque aprendeu a ficar de mãos dadas
sem precisar dizer nada.
E se alguém perguntar
por que certas presenças
fazem o mundo parecer menos difícil,
talvez a resposta seja simples:
algumas pessoas
não entram na vida da gente
como visita.
Entram como luz acesa
em casa antiga.
E, quando acendem,
até o coração mais cansado
finge que não estava esperando…
mas deixa a porta aberta.