Houve gestos demais
que nunca aprenderam meu nome.
Tentativas ruidosas,
cheias de forma, vazias de escuta,
que rondaram a superfície
sem jamais tocar o eixo.
Não foi falta de convite,
nem excesso de rigor
foi apenas o corpo reconhecendo
quando a voz não coincide
com o silêncio que ele espera.
Aprendi cedo
que certas seduções pedem resposta,
e outras apenas revelam
o quanto ainda estão longe.
A nenhuma delas me entreguei,
não por resistência,
mas por clareza.
Então aconteceu o improvável:
não houve anúncio,
nem passo marcado,
nem intenção exibida.
Algo chegou sem chegar,
ficou sem ocupar espaço,
e ainda assim mudou tudo.
Não pediu entrada.
Não disputou lugar.
Apenas permaneceu
onde nada antes permanecia.
E foi assim
sem método, sem insistência,
sem nome declarado
que aquilo que nunca tentou me tomar
acabou, silenciosamente,
me habitando.