Não se constrói um amor
com tijolos.
Constrói-se com aquilo
que ninguém vê
e, ainda assim, sustenta.
Uma escuta que não interrompe.
Uma presença que não vigia.
Um desejo que não captura.
Uma liberdade que não desaparece
quando encontra companhia.
O sonho é esse:
não morar no outro,
como quem ocupa,
mas criar entre dois corpos
um espaço invisível
onde a alma possa tirar o peso.
Um lugar sem paredes,
mas com abrigo.
Sem grades,
mas com permanência.
Sem contrato de posse,
mas com essa rara lealdade
que não precisa levantar a voz
para ser fiel.
Quero um amor
onde o encontro não reduza o mundo,
amplie.
Onde a paixão não devore,
ilumine.
Onde a segurança não seja controle,
mas descanso.
Onde a fusão não apague nomes,
apenas ensine dois destinos
a respirarem mais perto.
Porque amar assim
não é fechar portas.
É abrir um campo.
Um campo onde o desejo
possa ser fogo
sem virar incêndio.
Onde a ternura
possa ser raiz
sem virar prisão.
Onde duas liberdades
não se percam,
mas se reconheçam
com tamanha profundidade
que o retorno deixe de ser obrigação
e se torne vontade.
Esse é o sonho.
Não uma casa.
Uma atmosfera.
Um lugar feito de confiança,
cuidado, presença, corpo, riso, silêncio
e dessa coragem quase impossível
de deixar o amor fluir
sem apertá-lo nas mãos.
Porque certos amores
não pedem endereço.
Pedem espaço.
E, quando encontram,
não precisam provar nada.
Apenas respiram.