Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Não se constrói um amor

com tijolos.

 

Constrói-se com aquilo

que ninguém vê

e, ainda assim, sustenta.

 

Uma escuta que não interrompe.

Uma presença que não vigia.

Um desejo que não captura.

Uma liberdade que não desaparece

quando encontra companhia.

 

O sonho é esse:

 

não morar no outro,

como quem ocupa,

mas criar entre dois corpos

um espaço invisível

onde a alma possa tirar o peso.

 

Um lugar sem paredes,

mas com abrigo.

 

Sem grades,

mas com permanência.

 

Sem contrato de posse,

mas com essa rara lealdade

que não precisa levantar a voz

para ser fiel.

 

Quero um amor

onde o encontro não reduza o mundo,

amplie.

 

Onde a paixão não devore,

ilumine.

 

Onde a segurança não seja controle,

mas descanso.

 

Onde a fusão não apague nomes,

apenas ensine dois destinos

a respirarem mais perto.

 

Porque amar assim

não é fechar portas.

 

É abrir um campo.

 

Um campo onde o desejo

possa ser fogo

sem virar incêndio.

 

Onde a ternura

possa ser raiz

sem virar prisão.

 

Onde duas liberdades

não se percam,

mas se reconheçam

com tamanha profundidade

que o retorno deixe de ser obrigação

e se torne vontade.

 

Esse é o sonho.

 

Não uma casa.

 

Uma atmosfera.

 

Um lugar feito de confiança,

cuidado, presença, corpo, riso, silêncio

e dessa coragem quase impossível

de deixar o amor fluir

sem apertá-lo nas mãos.

 

Porque certos amores

não pedem endereço.

 

Pedem espaço.

 

E, quando encontram,

não precisam provar nada.

 

Apenas respiram.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 21/05/2026
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