Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Eu vinha bem delimitado.

 

Com minhas cercas internas,

meus horários de prudência,

meus “não convém” muito bem vestidos,

meus abismos particulares

devidamente sinalizados.

 

A vida, afinal,

tem andares.

 

No térreo, a gente sorri.

No primeiro, responde mensagens.

No segundo, finge controle.

No subsolo, guarda aquilo

que ainda chama pelo nome

mesmo depois de trancado.

 

Foi ali que você entrou.

 

Não pela porta principal,

que seria previsível demais.

Você entrou por uma fresta

que eu nem sabia aberta

e, com a delicadeza dos grandes perigos,

mudou a planta inteira da casa.

 

Desde então,

meu juízo trabalha meio expediente.

 

A razão aparece,

bate ponto,

faz recomendações sensatas,

mas o coração — esse funcionário antigo,

sindicalizado pelo impossível —

recusa-se a cumprir aviso prévio.

 

Eu tentei estabelecer limites.

 

Coloquei placas:

“não ultrapasse”,

“área emocional em reforma”,

“cuidado: esperança escorregadia”.

 

Inútil.

 

Há sentimentos que leem a placa,

agradecem a orientação

e seguem em frente

com uma educação irritante.

 

Porque o que nos une

não arromba.

 

Seria fácil demais.

 

O que nos une persuade as paredes.

Conversa com os medos.

Suborna a saudade.

Convence a tristeza

a abrir uma pequena janela

no fundo do porão.

 

E quando percebo,

já há luz

em lugares onde eu jurava

que só havia arquivo morto.

 

Talvez o amor seja isso:

não a ausência de limites,

mas a descoberta

de que alguns deles

eram apenas móveis antigos

atravessados no caminho.

 

Você não me tirou do chão.

 

Pior.

 

Fez o chão parecer maior.

 

E agora eu caminho em mim

com a estranha impressão

de que existiam cômodos

esperando teu nome

para serem inaugurados.

 

Não sei qual é o limite

do sentimento que nos une.

 

Se houver,

deve ser um limite móvel,

desses que se afastam

quando a verdade se aproxima.

 

Um limite elegante,

mas sem muita autoridade.

 

Porque diante de você,

até minha cautela

perde a voz firme

e começa a falar bonito.

 

E eu, que sempre respeitei fronteiras,

confesso:

 

há mapas que só servem

até alguém chegar

e provar, sorrindo,

que o território era maior.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 19/05/2026
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