Eu vinha bem delimitado.
Com minhas cercas internas,
meus horários de prudência,
meus “não convém” muito bem vestidos,
meus abismos particulares
devidamente sinalizados.
A vida, afinal,
tem andares.
No térreo, a gente sorri.
No primeiro, responde mensagens.
No segundo, finge controle.
No subsolo, guarda aquilo
que ainda chama pelo nome
mesmo depois de trancado.
Foi ali que você entrou.
Não pela porta principal,
que seria previsível demais.
Você entrou por uma fresta
que eu nem sabia aberta
e, com a delicadeza dos grandes perigos,
mudou a planta inteira da casa.
Desde então,
meu juízo trabalha meio expediente.
A razão aparece,
bate ponto,
faz recomendações sensatas,
mas o coração — esse funcionário antigo,
sindicalizado pelo impossível —
recusa-se a cumprir aviso prévio.
Eu tentei estabelecer limites.
Coloquei placas:
“não ultrapasse”,
“área emocional em reforma”,
“cuidado: esperança escorregadia”.
Inútil.
Há sentimentos que leem a placa,
agradecem a orientação
e seguem em frente
com uma educação irritante.
Porque o que nos une
não arromba.
Seria fácil demais.
O que nos une persuade as paredes.
Conversa com os medos.
Suborna a saudade.
Convence a tristeza
a abrir uma pequena janela
no fundo do porão.
E quando percebo,
já há luz
em lugares onde eu jurava
que só havia arquivo morto.
Talvez o amor seja isso:
não a ausência de limites,
mas a descoberta
de que alguns deles
eram apenas móveis antigos
atravessados no caminho.
Você não me tirou do chão.
Pior.
Fez o chão parecer maior.
E agora eu caminho em mim
com a estranha impressão
de que existiam cômodos
esperando teu nome
para serem inaugurados.
Não sei qual é o limite
do sentimento que nos une.
Se houver,
deve ser um limite móvel,
desses que se afastam
quando a verdade se aproxima.
Um limite elegante,
mas sem muita autoridade.
Porque diante de você,
até minha cautela
perde a voz firme
e começa a falar bonito.
E eu, que sempre respeitei fronteiras,
confesso:
há mapas que só servem
até alguém chegar
e provar, sorrindo,
que o território era maior.