Quando você aparece
no meu pensamento,
meu mundinho perde as paredes.
A sala aumenta.
A rua se abre.
O céu, que antes cabia na janela,
começa a derramar estrelas
sobre tudo que eu chamava
de rotina.
Não sei explicar.
Há sentimentos
que não entram pela porta.
Entram pela luz.
Chegam sem fazer barulho,
sentam no centro da alma
e, quando a gente percebe,
já trocaram os móveis de lugar,
abriram janelas antigas
e convenceram o coração
de que ainda vale a pena
usar roupa bonita por dentro.
Quando penso em você,
o pouco vira muito.
O quarto vira horizonte.
A tarde vira promessa.
O silêncio ganha música.
E esse mundo tão cheio
de coisas pequenas,
contas, horários, senhas,
mercado, segunda-feira
e gente opinando sem ser chamada,
de repente fica leve.
Como se a vida,
essa senhora prática
e um pouco mal-humorada,
lembrasse por um instante
que também já foi jovem,
também já perdeu o juízo,
também já escreveu nome de alguém
no fundo invisível do peito.
Eu não sei
se consigo sustentar
um amor desse tamanho.
Digo isso com humildade
e alguma preocupação logística.
Porque um amor imenso
é lindo,
mas ocupa espaço.
Precisa de tempo,
de presença,
de cuidado,
de coragem,
de chão.
Não vive só de estrela.
Estrela ilumina,
mas não faz café.
Galáxia encanta,
mas não segura a mão
num dia difícil.
E amor,
para existir neste mundo,
precisa aprender
a ser também matéria.
Precisa caber
numa mensagem simples,
num encontro possível,
num gesto pequeno,
numa escolha repetida,
na delicadeza concreta
de alguém que fica
não porque foi vencido pelo destino,
mas porque encontrou, livremente,
um lugar onde deseja permanecer.
Ainda assim,
há algo em mim
que acredita.
Não uma crença ingênua,
dessas que pintam o mundo de rosa
e depois reclamam da chuva.
É outra coisa.
Uma esperança mais adulta,
com os pés no chão
e os olhos teimosamente acesos.
A esperança de que a vida,
quando encontra um amor real,
às vezes faz engenharia secreta.
Abre passagem.
Move horários.
Desentope caminhos.
Dá um empurrão discreto
naquilo que parecia impossível.
Não resolve tudo,
a vida não é funcionária nossa,
mas sabe reconhecer
quando algo é raro demais
para ser tratado
como coincidência comum.
E este amor,
se é amor mesmo,
há de encontrar sua forma.
Talvez não como eu imagino.
Talvez não no tempo
que minha ansiedade gostaria
de decretar em cartório.
Mas encontrará.
Porque aquilo que é verdadeiro
não precisa gritar
para continuar existindo.
Vai fazendo raiz.
Vai procurando água.
Vai aprendendo o terreno.
Vai transformando distância
em paciência,
dúvida em cuidado,
desejo em respeito,
sonho em caminho.
E se um dia
esse amor puder se realizar
no mundo concreto,
não quero que venha
como tempestade.
Quero que venha
como casa.
Com porta aberta,
mesa posta,
riso no corredor,
silêncio confortável,
e aquela paz rara
de duas pessoas
que não precisam diminuir o infinito
para caberem uma na outra.
Porque quando você aparece
no meu pensamento,
tudo se expande.
Meu mundo vira universo,
multiverso,
campo aberto,
céu sem cerca,
beleza sem explicação.
Mas o que eu mais desejo,
no fundo,
é que esse infinito
aprenda um gesto simples:
chegar perto.
Ficar.
E, sem perder as estrelas,
descobrir conosco
a difícil e maravilhosa arte
de existir no mesmo chão.