Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Quando você aparece

no meu pensamento,

meu mundinho perde as paredes.

 

A sala aumenta.

A rua se abre.

O céu, que antes cabia na janela,

começa a derramar estrelas

sobre tudo que eu chamava

de rotina.

 

Não sei explicar.

 

Há sentimentos

que não entram pela porta.

Entram pela luz.

 

Chegam sem fazer barulho,

sentam no centro da alma

e, quando a gente percebe,

já trocaram os móveis de lugar,

abriram janelas antigas

e convenceram o coração

de que ainda vale a pena

usar roupa bonita por dentro.

 

Quando penso em você,

o pouco vira muito.

 

O quarto vira horizonte.

A tarde vira promessa.

O silêncio ganha música.

E esse mundo tão cheio

de coisas pequenas,

contas, horários, senhas,

mercado, segunda-feira

e gente opinando sem ser chamada,

 

de repente fica leve.

 

Como se a vida,

essa senhora prática

e um pouco mal-humorada,

lembrasse por um instante

que também já foi jovem,

também já perdeu o juízo,

também já escreveu nome de alguém

no fundo invisível do peito.

 

Eu não sei

se consigo sustentar

um amor desse tamanho.

 

Digo isso com humildade

e alguma preocupação logística.

 

Porque um amor imenso

é lindo,

mas ocupa espaço.

 

Precisa de tempo,

de presença,

de cuidado,

de coragem,

de chão.

 

Não vive só de estrela.

 

Estrela ilumina,

mas não faz café.

Galáxia encanta,

mas não segura a mão

num dia difícil.

 

E amor,

para existir neste mundo,

precisa aprender

a ser também matéria.

 

Precisa caber

numa mensagem simples,

num encontro possível,

num gesto pequeno,

numa escolha repetida,

 

na delicadeza concreta

de alguém que fica

não porque foi vencido pelo destino,

mas porque encontrou, livremente,

um lugar onde deseja permanecer.

 

Ainda assim,

há algo em mim

que acredita.

 

Não uma crença ingênua,

dessas que pintam o mundo de rosa

e depois reclamam da chuva.

 

É outra coisa.

 

Uma esperança mais adulta,

com os pés no chão

e os olhos teimosamente acesos.

 

A esperança de que a vida,

quando encontra um amor real,

às vezes faz engenharia secreta.

 

Abre passagem.

Move horários.

Desentope caminhos.

Dá um empurrão discreto

naquilo que parecia impossível.

 

Não resolve tudo, 

a vida não é funcionária nossa,

mas sabe reconhecer

quando algo é raro demais

para ser tratado

como coincidência comum.

 

E este amor,

se é amor mesmo,

há de encontrar sua forma.

 

Talvez não como eu imagino.

Talvez não no tempo

que minha ansiedade gostaria

de decretar em cartório.

 

Mas encontrará.

 

Porque aquilo que é verdadeiro

não precisa gritar

para continuar existindo.

 

Vai fazendo raiz.

 

Vai procurando água.

Vai aprendendo o terreno.

Vai transformando distância

em paciência,

dúvida em cuidado,

desejo em respeito,

sonho em caminho.

 

E se um dia

esse amor puder se realizar

no mundo concreto,

 

não quero que venha

como tempestade.

 

Quero que venha

como casa.

 

Com porta aberta,

mesa posta,

riso no corredor,

silêncio confortável,

e aquela paz rara

de duas pessoas

que não precisam diminuir o infinito

para caberem uma na outra.

 

Porque quando você aparece

no meu pensamento,

tudo se expande.

 

Meu mundo vira universo,

multiverso,

campo aberto,

céu sem cerca,

beleza sem explicação.

 

Mas o que eu mais desejo,

no fundo,

 

é que esse infinito

aprenda um gesto simples:

 

chegar perto.

 

Ficar.

 

E, sem perder as estrelas,

descobrir conosco

a difícil e maravilhosa arte

de existir no mesmo chão.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 15/05/2026
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