Dizem que os cisnes
escolhem um amor para a vida inteira.
Eu não sei se é ciência,
poesia
ou fofoca antiga de lago,
mas acredito.
Acredito porque, quando te imagino,
há sempre água calma,
um parque ao entardecer,
folhas caindo com certa competência
e dois cisnes atravessando o mundo
como quem não tem pressa
porque já encontrou companhia.
Eles deslizam juntos,
sem discurso,
sem contrato,
sem precisar explicar ao universo
o que o universo deveria ter entendido
na primeira olhada.
Um vai um pouco à frente,
o outro acompanha.
Depois trocam.
Depois seguem lado a lado,
porque até o amor eterno
precisa alternar quem finge saber o caminho.
E eu penso em nós.
Não como casal perfeito,
isso seria falta de imaginação
e excesso de propaganda.
Penso em nós como dois cisnes
bonitos e levemente dramáticos,
atravessando o lago da vida
com alguma elegância,
alguns sustos,
e uma dignidade admirável
mesmo quando a água está fria.
Porque amar não é apenas
ser bonito no reflexo.
É continuar nadando
quando o vento muda,
quando o parque esvazia,
quando a tarde perde o dourado
e a noite chega
com seu casaco escuro.
É dividir o silêncio.
É entender o movimento do outro.
É não transformar qualquer ondinha
em naufrágio emocional.
É saber que, às vezes,
um cisne acorda filosófico
e o outro só queria pão.
Ainda assim, ficam.
E há algo de sagrado nisso:
não na perfeição,
mas na permanência.
Na escolha discreta
de voltar para o mesmo lado do lago.
Na curva feita juntos.
No pescoço que se inclina,
no olhar que reconhece,
naquela coreografia antiga
que ninguém ensina
e só o amor aprende.
Se um dia a vida nos der
um banco de praça,
um lago tranquilo
e uma tarde sem pressa,
quero sentar contigo
e observar dois cisnes passando.
Vou fingir naturalidade,
claro.
Mas por dentro
estarei fazendo planos absurdos
com a eternidade.
Porque talvez o amor seja isso:
dois seres atravessando a água,
sem dominar o lago,
sem vencer o tempo,
sem prometer céu demais,
apenas seguindo juntos,
com beleza,
com cuidado,
com aquela teimosia doce
de quem descobriu
que o infinito, às vezes,
não precisa abrir asas.
Basta nadar ao lado.