Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Dizem que os cisnes

escolhem um amor para a vida inteira.

 

Eu não sei se é ciência,

poesia

ou fofoca antiga de lago,

mas acredito.

 

Acredito porque, quando te imagino,

há sempre água calma,

um parque ao entardecer,

folhas caindo com certa competência

e dois cisnes atravessando o mundo

como quem não tem pressa

porque já encontrou companhia.

 

Eles deslizam juntos,

sem discurso,

sem contrato,

sem precisar explicar ao universo

o que o universo deveria ter entendido

na primeira olhada.

 

Um vai um pouco à frente,

o outro acompanha.

Depois trocam.

Depois seguem lado a lado,

porque até o amor eterno

precisa alternar quem finge saber o caminho.

 

E eu penso em nós.

 

Não como casal perfeito,

isso seria falta de imaginação

e excesso de propaganda.

 

Penso em nós como dois cisnes

bonitos e levemente dramáticos,

atravessando o lago da vida

com alguma elegância,

alguns sustos,

e uma dignidade admirável

mesmo quando a água está fria.

 

Porque amar não é apenas

ser bonito no reflexo.

 

É continuar nadando

quando o vento muda,

quando o parque esvazia,

quando a tarde perde o dourado

e a noite chega

com seu casaco escuro.

 

É dividir o silêncio.

É entender o movimento do outro.

É não transformar qualquer ondinha

em naufrágio emocional.

 

É saber que, às vezes,

um cisne acorda filosófico

e o outro só queria pão.

 

Ainda assim, ficam.

 

E há algo de sagrado nisso:

não na perfeição,

mas na permanência.

 

Na escolha discreta

de voltar para o mesmo lado do lago.

Na curva feita juntos.

No pescoço que se inclina,

no olhar que reconhece,

naquela coreografia antiga

que ninguém ensina

e só o amor aprende.

 

Se um dia a vida nos der

um banco de praça,

um lago tranquilo

e uma tarde sem pressa,

 

quero sentar contigo

e observar dois cisnes passando.

 

Vou fingir naturalidade,

claro.

 

Mas por dentro

estarei fazendo planos absurdos

com a eternidade.

 

Porque talvez o amor seja isso:

 

dois seres atravessando a água,

sem dominar o lago,

sem vencer o tempo,

sem prometer céu demais,

 

apenas seguindo juntos,

com beleza,

com cuidado,

com aquela teimosia doce

de quem descobriu

que o infinito, às vezes,

não precisa abrir asas.

 

Basta nadar ao lado.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 11/05/2026
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