Pedras do Caminho
Vaidade é espelho torto:
devolve um santo, esconde o humano.
Arrogância é capa emprestada:
faz peso, não faz alma.
Trocamos passos por poses,
aplausos por algemas de veludo,
e chamamos “destino”
a coleira de ouro do “parecer”.
Mas ninguém vive com pulmões alheios.
Cada um respira o próprio fôlego
e sangra o próprio aprendizado.
Comparar-se é negar a raridade do próprio rosto.
“Existir não é opcional.”
Pois então existo, inteiro,
com minhas falhas à luz do meio-dia,
sem tirar nem pôr brilho de ninguém.
Largo as duas pedras, vaidade e arrogância e a estrada, antes estreita, se alarga.
Caminho sem máscara,
descubro que o chão devolve
o passo de quem pisa com verdade.
Felicidade não mora na vitrine:
cresce no canteiro do hábito,
rega-se com silêncio,
colhe-se em trabalho íntimo.
Que eu saiba ser só eu,
sem pedir licença ao aplauso;
que eu vença sem plateia,
e ame sem palco.
Quando o caminho entope,
não culpo o mapa
esvazio os bolsos,
deixo as pedras no acostamento,
e sigo.