Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Quando tua presença me atravessa,

não sou exatamente o mesmo.

 

Alguma coisa em mim se desloca,

como se a vida, por um instante,

abrisse uma porta secreta

por trás da própria vida.

 

O mundo continua onde está:

as ruas no mesmo lugar,

os relógios fingindo autoridade,

as coisas comuns repetindo

sua antiga obrigação de existir.

 

Mas dentro de mim, não.

 

Dentro de mim,

quando tua presença me atravessa,

a realidade muda de idioma.

 

Minha poesia se amplia.

Algo em ti me faz escrever melhor

do que eu saberia sozinho.

Mesmo sem grande bagagem de palavras,

mesmo sem todos os nomes certos

para o que o coração tenta dizer,

tua presença parece abrir em mim

um idioma mais alto,

uma forma mais bonita de sentir,

um vocabulário secreto

que só aparece

quando algo em mim te reconhece.

 

Porque algo em ti toca

uma parte escondida da alma,

um território que eu não alcanço sozinho,

um país íntimo

onde as palavras chegam com luz nos ombros.

 

Há lembranças que são apenas lembranças.

Passam, distraem, desaparecem.

 

Mas tua presença, não.

 

Ela permanece.

 

É como se teu rosto,

mesmo distante,

fosse uma chave silenciosa

girando no centro do peito;

e, de repente,

abrem-se salas que eu desconhecia,

janelas que nunca vi,

dimensões de mim

que talvez sempre existissem,

mas só aprenderam a respirar

quando tua luz chegou.

 

Há uma versão de mim

que só desperta contigo.

 

Um homem mais atento,

mais inteiro,

mais delicado com o mundo.

 

Um homem que olha a tarde

e encontra nela uma promessa;

que escuta uma música

e percebe, no intervalo das notas,

um lugar reservado para tua presença;

que vê a luz cair sobre as coisas

e entende que beleza não é enfeite:

é aviso.

 

Aviso de que a vida ainda pode começar

mesmo depois de tantas esperas.

Aviso de que o coração

não envelhece quando ama:

apenas recorda

que nasceu para arder com sentido.

 

Quando tua presença me atravessa,

minhas palavras surgem

de um lugar que não obedece à vontade.

 

Não é memória.

Não é imaginação.

Não é desejo apenas,

embora o desejo exista,

claro e vivo,

como uma chama que aprendeu delicadeza

para não ferir o altar onde acende.

 

É mais fundo.

 

É como se houvesse em mim

uma nascente escondida,

um ponto puro,

um silêncio fértil,

um céu subterrâneo

que só começa a chover beleza

quando tua imagem passa por ele.

 

E então as frases vêm.

 

Vêm como pássaros

que conhecem o caminho de volta.

Vêm como cartas antigas

escritas antes de eu saber teu nome.

Vêm como se toda a minha vida

tivesse ensaiado em segredo

a possibilidade de te dizer, um dia,

sem exagero e sem defesa:

 

há algo em você

que me torna mais vivo.

 

Não mais inquieto apenas.

Não mais apaixonado apenas.

Mais vivo.

 

Como se eu tivesse atravessado anos

respirando o necessário,

e agora, tocado por tua presença,

descobrisse a diferença

entre continuar existindo

e realmente habitar a própria existência.

 

Você não me acrescenta apenas encanto.

Você amplia o meu alcance.

 

Com tua presença em mim,

meu afeto ganha corpo,

meu cuidado ganha direção,

minha esperança perde a timidez.

Até minhas ausências parecem querer voltar

para participar da beleza

que teu nome inaugura.

 

E não se trata

de transformar você em milagre,

nem de colocar sobre teus ombros

o peso injusto de salvar alguém.

 

Não.

 

É mais bonito que isso.

 

É simplesmente reconhecer

que certas pessoas não chegam

para nos tirar de nós mesmos,

mas para revelar

o quanto ainda cabia em nós

sem que soubéssemos.

 

Você me revela.

 

Sem esforço.

Sem discurso.

Sem saber talvez.

 

Basta que tua presença me atravesse

e já existe mais mundo dentro do mundo.

Mais céu dentro da noite.

Mais futuro dentro do presente.

Mais coragem dentro do silêncio.

 

E, se minhas palavras às vezes parecem grandes,

não é porque queiram impressionar.

É porque pequenas demais

elas não conseguem carregar

o que tua presença acende.

 

Como dizer pouco

quando o coração se expande?

 

Como escrever simples

quando a alma, ao sentir você,

sobe escadas que não conhecia?

 

Como fingir medida

diante de um sentimento

que não grita,

mas cresce em profundidade

como raiz buscando água sagrada?

 

Quando tua presença me atravessa,

eu me torno outro.

 

Não outro estranho.

Outro melhor.

 

Talvez o homem que eu deveria ter sido

antes que o medo, o tempo e a vida

me ensinassem a diminuir o brilho

para caber nos dias.

 

Você não me dá palavras:

você devolve a nascente.

 

Não me dá sonhos:

abre espaço para que eles respirem.

 

Não me promete nada:

e ainda assim, só de existir

no horizonte íntimo do meu sentir,

faz o impossível perder

um pouco da sua arrogância.

 

Por isso, quando tua presença me atravessa,

não escrevo apenas amor.

 

Escrevo passagem.

Escrevo despertar.

Escrevo o espanto

de descobrir que ainda havia em mim

uma região intacta,

capaz de ternura,

de desejo limpo,

de cuidado imenso,

de esperança quase infantil

e, ao mesmo tempo,

antiga como as coisas que nunca morrem.

 

Se um dia você puder me ler

sem medo do tamanho do que digo,

leia assim:

 

não como cobrança,

não como pressa,

não como destino imposto.

 

Leia como quem encontra

uma lâmpada acesa na janela

de uma casa distante.

 

Ela não exige que você entre.

Apenas mostra

que há calor.

 

Mostra que há alguém

guardando beleza no silêncio,

aprendendo a amar com dignidade,

fazendo do próprio sentimento

não uma prisão,

mas uma forma mais alta de presença.

 

Porque, quando tua presença me atravessa,

a poesia deixa de ser enfeite

e vira respiração.

 

E eu, que tantas vezes fui apenas homem,

cheio de limites, sombras e perguntas,

por alguns instantes me torno

quase música,

quase claridade,

quase caminho.

 

Não porque eu fuja da terra,

mas porque tua presença me ensina

que também existe céu

dentro de quem ama.

 

E se isso for sonho,

que seja o mais lúcido dos sonhos.

 

Se for esperança,

que seja a mais nobre.

 

Se for amor,

que encontre um dia

a delicadeza de poder fluir

sem ferir,

sem prender,

sem pesar.

 

Mas, enquanto esse dia não chega,

basta esta verdade

pousada no centro de tudo:

 

quando tua presença me atravessa,

minha poesia se amplia,

minha alma encontra dimensões

que eu desconhecia,

e minhas palavras nascem

de um lugar secreto,

profundo, luminoso 

 

um lugar que talvez só exista

porque, em algum ponto da vida,

você passou pelos meus olhos

e ficou.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 10/05/2026
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