Quando tua presença me atravessa,
não sou exatamente o mesmo.
Alguma coisa em mim se desloca,
como se a vida, por um instante,
abrisse uma porta secreta
por trás da própria vida.
O mundo continua onde está:
as ruas no mesmo lugar,
os relógios fingindo autoridade,
as coisas comuns repetindo
sua antiga obrigação de existir.
Mas dentro de mim, não.
Dentro de mim,
quando tua presença me atravessa,
a realidade muda de idioma.
Minha poesia se amplia.
Algo em ti me faz escrever melhor
do que eu saberia sozinho.
Mesmo sem grande bagagem de palavras,
mesmo sem todos os nomes certos
para o que o coração tenta dizer,
tua presença parece abrir em mim
um idioma mais alto,
uma forma mais bonita de sentir,
um vocabulário secreto
que só aparece
quando algo em mim te reconhece.
Porque algo em ti toca
uma parte escondida da alma,
um território que eu não alcanço sozinho,
um país íntimo
onde as palavras chegam com luz nos ombros.
Há lembranças que são apenas lembranças.
Passam, distraem, desaparecem.
Mas tua presença, não.
Ela permanece.
É como se teu rosto,
mesmo distante,
fosse uma chave silenciosa
girando no centro do peito;
e, de repente,
abrem-se salas que eu desconhecia,
janelas que nunca vi,
dimensões de mim
que talvez sempre existissem,
mas só aprenderam a respirar
quando tua luz chegou.
Há uma versão de mim
que só desperta contigo.
Um homem mais atento,
mais inteiro,
mais delicado com o mundo.
Um homem que olha a tarde
e encontra nela uma promessa;
que escuta uma música
e percebe, no intervalo das notas,
um lugar reservado para tua presença;
que vê a luz cair sobre as coisas
e entende que beleza não é enfeite:
é aviso.
Aviso de que a vida ainda pode começar
mesmo depois de tantas esperas.
Aviso de que o coração
não envelhece quando ama:
apenas recorda
que nasceu para arder com sentido.
Quando tua presença me atravessa,
minhas palavras surgem
de um lugar que não obedece à vontade.
Não é memória.
Não é imaginação.
Não é desejo apenas,
embora o desejo exista,
claro e vivo,
como uma chama que aprendeu delicadeza
para não ferir o altar onde acende.
É mais fundo.
É como se houvesse em mim
uma nascente escondida,
um ponto puro,
um silêncio fértil,
um céu subterrâneo
que só começa a chover beleza
quando tua imagem passa por ele.
E então as frases vêm.
Vêm como pássaros
que conhecem o caminho de volta.
Vêm como cartas antigas
escritas antes de eu saber teu nome.
Vêm como se toda a minha vida
tivesse ensaiado em segredo
a possibilidade de te dizer, um dia,
sem exagero e sem defesa:
há algo em você
que me torna mais vivo.
Não mais inquieto apenas.
Não mais apaixonado apenas.
Mais vivo.
Como se eu tivesse atravessado anos
respirando o necessário,
e agora, tocado por tua presença,
descobrisse a diferença
entre continuar existindo
e realmente habitar a própria existência.
Você não me acrescenta apenas encanto.
Você amplia o meu alcance.
Com tua presença em mim,
meu afeto ganha corpo,
meu cuidado ganha direção,
minha esperança perde a timidez.
Até minhas ausências parecem querer voltar
para participar da beleza
que teu nome inaugura.
E não se trata
de transformar você em milagre,
nem de colocar sobre teus ombros
o peso injusto de salvar alguém.
Não.
É mais bonito que isso.
É simplesmente reconhecer
que certas pessoas não chegam
para nos tirar de nós mesmos,
mas para revelar
o quanto ainda cabia em nós
sem que soubéssemos.
Você me revela.
Sem esforço.
Sem discurso.
Sem saber talvez.
Basta que tua presença me atravesse
e já existe mais mundo dentro do mundo.
Mais céu dentro da noite.
Mais futuro dentro do presente.
Mais coragem dentro do silêncio.
E, se minhas palavras às vezes parecem grandes,
não é porque queiram impressionar.
É porque pequenas demais
elas não conseguem carregar
o que tua presença acende.
Como dizer pouco
quando o coração se expande?
Como escrever simples
quando a alma, ao sentir você,
sobe escadas que não conhecia?
Como fingir medida
diante de um sentimento
que não grita,
mas cresce em profundidade
como raiz buscando água sagrada?
Quando tua presença me atravessa,
eu me torno outro.
Não outro estranho.
Outro melhor.
Talvez o homem que eu deveria ter sido
antes que o medo, o tempo e a vida
me ensinassem a diminuir o brilho
para caber nos dias.
Você não me dá palavras:
você devolve a nascente.
Não me dá sonhos:
abre espaço para que eles respirem.
Não me promete nada:
e ainda assim, só de existir
no horizonte íntimo do meu sentir,
faz o impossível perder
um pouco da sua arrogância.
Por isso, quando tua presença me atravessa,
não escrevo apenas amor.
Escrevo passagem.
Escrevo despertar.
Escrevo o espanto
de descobrir que ainda havia em mim
uma região intacta,
capaz de ternura,
de desejo limpo,
de cuidado imenso,
de esperança quase infantil
e, ao mesmo tempo,
antiga como as coisas que nunca morrem.
Se um dia você puder me ler
sem medo do tamanho do que digo,
leia assim:
não como cobrança,
não como pressa,
não como destino imposto.
Leia como quem encontra
uma lâmpada acesa na janela
de uma casa distante.
Ela não exige que você entre.
Apenas mostra
que há calor.
Mostra que há alguém
guardando beleza no silêncio,
aprendendo a amar com dignidade,
fazendo do próprio sentimento
não uma prisão,
mas uma forma mais alta de presença.
Porque, quando tua presença me atravessa,
a poesia deixa de ser enfeite
e vira respiração.
E eu, que tantas vezes fui apenas homem,
cheio de limites, sombras e perguntas,
por alguns instantes me torno
quase música,
quase claridade,
quase caminho.
Não porque eu fuja da terra,
mas porque tua presença me ensina
que também existe céu
dentro de quem ama.
E se isso for sonho,
que seja o mais lúcido dos sonhos.
Se for esperança,
que seja a mais nobre.
Se for amor,
que encontre um dia
a delicadeza de poder fluir
sem ferir,
sem prender,
sem pesar.
Mas, enquanto esse dia não chega,
basta esta verdade
pousada no centro de tudo:
quando tua presença me atravessa,
minha poesia se amplia,
minha alma encontra dimensões
que eu desconhecia,
e minhas palavras nascem
de um lugar secreto,
profundo, luminoso
um lugar que talvez só exista
porque, em algum ponto da vida,
você passou pelos meus olhos
e ficou.