Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

A Era das Borboletas

 

Há séculos voamos com garras,

confundindo poder com ferocidade.

Mas o amor ainda sussurra nas frestas,

lembrando-nos de que a força verdadeira é mansa.

 

Delicadeza não é rendição:

é a coragem de pousar a mão

onde a lâmina aprendeu a morar.

É falar baixo para o coração ouvir alto.

É resistir sem ferir,

e, ao ferir, aprender a curar.

 

Entre a vaidade que pede palco

e a arrogância que coleciona troféus de espelho,

prefiro o gesto sem plateia:

um copo d’água,

um silêncio que ampara,

um “desculpa” antes que o orgulho acorde.

 

Chamam de fraqueza

que assim chamem.

Foi com asas frágeis

que as borboletas desmentiram a era dos lobos,

colocando cores onde o cinza parecia decreto.

 

Delicadeza é semente teimosa:

atravessa o asfalto das urgências,

abre brechas nas cidades de ferro,

e nasce, simples, no meio-fio do dia.

 

Quando a justiça tarda,

que ao menos a gentileza chegue cedo.

Quando a lei falha,

que a cortesia nos lembre o caminho de casa.

 

Porque construir um mundo melhor

não começa com canhões,

mas com mãos que desapertam punhos,

olhos que desarmam salas,

palavras que devolvem o fôlego.

 

E se a dor é a moeda do rigor,

que a delicadeza seja nosso contrabando:

uma economia de cuidado

circulando, de peito em peito,

até que o planeta, cansado de cinza,

aceite, enfim, amanhecer em cor.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 09/05/2026
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