A Era das Borboletas
Há séculos voamos com garras,
confundindo poder com ferocidade.
Mas o amor ainda sussurra nas frestas,
lembrando-nos de que a força verdadeira é mansa.
Delicadeza não é rendição:
é a coragem de pousar a mão
onde a lâmina aprendeu a morar.
É falar baixo para o coração ouvir alto.
É resistir sem ferir,
e, ao ferir, aprender a curar.
Entre a vaidade que pede palco
e a arrogância que coleciona troféus de espelho,
prefiro o gesto sem plateia:
um copo d’água,
um silêncio que ampara,
um “desculpa” antes que o orgulho acorde.
Chamam de fraqueza
que assim chamem.
Foi com asas frágeis
que as borboletas desmentiram a era dos lobos,
colocando cores onde o cinza parecia decreto.
Delicadeza é semente teimosa:
atravessa o asfalto das urgências,
abre brechas nas cidades de ferro,
e nasce, simples, no meio-fio do dia.
Quando a justiça tarda,
que ao menos a gentileza chegue cedo.
Quando a lei falha,
que a cortesia nos lembre o caminho de casa.
Porque construir um mundo melhor
não começa com canhões,
mas com mãos que desapertam punhos,
olhos que desarmam salas,
palavras que devolvem o fôlego.
E se a dor é a moeda do rigor,
que a delicadeza seja nosso contrabando:
uma economia de cuidado
circulando, de peito em peito,
até que o planeta, cansado de cinza,
aceite, enfim, amanhecer em cor.