Talvez, antes de tudo,
antes da mesa,
da noite,
do primeiro olhar
e desse incêndio elegante
que depois fingimos chamar de acaso,
talvez tenha havido
uma reunião clandestina
em algum andar esquecido do universo.
Não no Olimpo antigo,
nem num céu de mármore,
nem entre anjos bem-comportados
com atas, harpas e burocracias de luz.
Penso em algo mais perigoso.
Uma sala escura,
com estrelas derramadas no chão,
mapas do destino abertos sobre a mesa,
constelações rabiscadas a carvão,
e alguns deuses cansados da eternidade
brincando com vidas humanas
como quem mistura cartas
num bar depois da meia-noite.
Um deles deve ter dito:
“Esses dois ainda não.”
Outro, talvez mais cruel
ou mais poeta, respondeu:
“Justamente por isso.”
E então moveram alguma coisa.
Não muito.
Os deuses inteligentes nunca empurram;
só inclinam o mundo
um milímetro para o inevitável.
Mudaram uma hora.
Atrasaram um passo.
Inventaram uma mesa.
Colocaram uma noite sem promessa
no caminho de um homem
que já não esperava tanto.
E você apareceu.
Não como aparição,
porque aparições são fáceis demais
para quem sabe impressionar.
Você apareceu como gente.
Sorriso, olhos, presença,
uma beleza sem esforço
atravessando a sala
com a naturalidade perigosa
de quem não sabe
que acaba de alterar uma órbita.
Foi ali que o universo perdeu a compostura.
Alguma estrela deve ter tossido.
Algum deus menor derrubou vinho
sobre o mapa das probabilidades.
O destino, esse velho funcionário arrogante,
ergueu os olhos do papel
e percebeu tarde demais
que já não mandava tanto.
Porque existem encontros
que não acontecem.
Eles desobedecem.
Chegam fora da hora,
fora do plano,
fora da prudência,
e ainda assim parecem carregar
uma precisão absurda,
como se tudo que antes deu errado
estivesse apenas abrindo corredor
para aquele instante respirar.
Desde então,
há um homem tentando parecer normal
enquanto carrega no peito
um sistema solar em reforma.
Por fora, segue a vida:
mensagens, compromissos, ruas,
o café esfriando,
o mundo pedindo respostas práticas.
Por dentro, não.
Por dentro,
satélites mudam de rota.
Marés aprendem teu nome.
Palavras que nunca tiveram coragem
começam a vestir roupa de gala.
E a alma, essa antiga fugitiva,
volta para casa
só para olhar de novo
o lugar onde você ficou.
Talvez seja isso
que os deuses invejem nos humanos:
nossa maneira ridícula e magnífica
de sermos destruídos por um olhar
e chamarmos isso de começo.
Eles têm eternidade,
mas nós temos segundos
que valem mais do que eras.
Eles têm poder,
mas nós temos a vertigem
de desejar sem garantia.
Eles movem astros,
mas não sabem o que é esperar
uma resposta simples
com o coração fazendo barulho
como se quisesse inaugurar o mundo.
E, se brincaram com o destino,
brincaram mal.
Porque não criaram apenas encanto.
Criaram reconhecimento.
Algo mais antigo do que vontade,
mais limpo do que fantasia,
mais sério do que uma paixão bonita
tentando se explicar.
Criaram essa certeza estranha
de que algumas pessoas
não entram na nossa vida:
acessam.
Como senha esquecida.
Como porta secreta.
Como música que o corpo reconhece
antes da memória saber cantar.
Você me acessou.
E desde então
há dimensões em mim
que só acendem
quando tua presença atravessa o pensamento.
Não é obsessão.
Obsessão estreita.
Isso amplia.
Abre janelas.
Levanta tetos.
Desarma cinismos.
Faz o futuro, esse animal desconfiado,
aproximar o focinho da minha mão.
E eu, que talvez já soubesse sobreviver,
comecei a desconfiar
que sobreviver era pouco.
Que viver talvez fosse outra coisa.
Algo com teu riso no horizonte.
Com tua mão possível.
Com uma casa ainda invisível
erguida não de paredes,
mas de cuidado, presença, partilha,
e essa delicadeza bruta
de querer ficar.
Não sei que entidade assinou isso.
Afrodite talvez sorrisse,
mas acharia simples demais.
Eros negaria envolvimento,
como todo culpado elegante.
As Moiras, velhas costureiras do impossível,
diriam que foi apenas um nó
dado no fio errado.
Mas eu desconfio
de algum deus sem nome,
um deus menor e genial,
desses que não aparecem em templos,
mas gostam de se esconder
em coincidências bem-feitas.
Ele deve ter olhado para nós
e pensado:
“Vamos ver
se ainda são capazes
de reconhecer beleza
sem fugir dela.”
E aqui estamos.
Você talvez sem saber
a extensão do que inaugurou.
Eu tentando não transformar
um sentimento imenso
numa coisa pesada.
Porque amar, quando é verdadeiro,
também aprende etiqueta diante do sagrado.
Não invade.
Não exige.
Não decreta destino
como quem põe algemas em estrela.
Amar assim
é acender uma lâmpada na janela
e deixar que a noite veja:
há calor aqui,
há verdade aqui,
há um lugar possível
para quem chegar por escolha.
Por isso não peço aos deuses
que te tragam.
Os deuses exageram.
São antigos, dramáticos,
péssimos com delicadezas humanas.
Peço apenas
que não atrapalhem.
Que deixem o tempo respirar.
Que não façam do medo um muro.
Que não confundam prudência com fuga.
Que permitam ao amor
essa rara chance
de nascer sem violência,
crescer sem pressa
e, um dia, se for justo,
encontrar as duas mãos abertas.
Porque se você vier,
não quero que venha vencida pelo destino.
Quero que venha livre.
Livre o bastante
para escolher ficar.
E se ficar,
que os deuses aprendam conosco
o que nunca entenderam direito:
que o amor mais forte
não é o que domina o céu,
mas o que sustenta a terra.
Não é raio.
É raiz.
Não é decreto.
É cuidado.
Não é capricho das estrelas.
É duas pessoas,
ainda frágeis, ainda humanas,
decidindo proteger juntas
aquilo que o universo,
num raro momento de beleza,
teve a ousadia de aproximar.