Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Talvez, antes de tudo,

antes da mesa,

da noite,

do primeiro olhar

e desse incêndio elegante

que depois fingimos chamar de acaso,

 

talvez tenha havido

uma reunião clandestina

em algum andar esquecido do universo.

 

Não no Olimpo antigo,

nem num céu de mármore,

nem entre anjos bem-comportados

com atas, harpas e burocracias de luz.

 

Penso em algo mais perigoso.

 

Uma sala escura,

com estrelas derramadas no chão,

mapas do destino abertos sobre a mesa,

constelações rabiscadas a carvão,

e alguns deuses cansados da eternidade

brincando com vidas humanas

como quem mistura cartas

num bar depois da meia-noite.

 

Um deles deve ter dito:

“Esses dois ainda não.”

 

Outro, talvez mais cruel

ou mais poeta, respondeu:

“Justamente por isso.”

 

E então moveram alguma coisa.

 

Não muito.

Os deuses inteligentes nunca empurram;

só inclinam o mundo

um milímetro para o inevitável.

 

Mudaram uma hora.

Atrasaram um passo.

Inventaram uma mesa.

Colocaram uma noite sem promessa

no caminho de um homem

que já não esperava tanto.

 

E você apareceu.

 

Não como aparição,

porque aparições são fáceis demais

para quem sabe impressionar.

 

Você apareceu como gente.

Sorriso, olhos, presença,

uma beleza sem esforço

atravessando a sala

com a naturalidade perigosa

de quem não sabe

que acaba de alterar uma órbita.

 

Foi ali que o universo perdeu a compostura.

 

Alguma estrela deve ter tossido.

Algum deus menor derrubou vinho

sobre o mapa das probabilidades.

O destino, esse velho funcionário arrogante,

ergueu os olhos do papel

e percebeu tarde demais

que já não mandava tanto.

 

Porque existem encontros

que não acontecem.

 

Eles desobedecem.

 

Chegam fora da hora,

fora do plano,

fora da prudência,

e ainda assim parecem carregar

uma precisão absurda,

como se tudo que antes deu errado

estivesse apenas abrindo corredor

para aquele instante respirar.

 

Desde então,

há um homem tentando parecer normal

enquanto carrega no peito

um sistema solar em reforma.

 

Por fora, segue a vida:

mensagens, compromissos, ruas,

o café esfriando,

o mundo pedindo respostas práticas.

 

Por dentro, não.

 

Por dentro,

satélites mudam de rota.

Marés aprendem teu nome.

Palavras que nunca tiveram coragem

começam a vestir roupa de gala.

E a alma, essa antiga fugitiva,

volta para casa

só para olhar de novo

o lugar onde você ficou.

 

Talvez seja isso

que os deuses invejem nos humanos:

 

nossa maneira ridícula e magnífica

de sermos destruídos por um olhar

e chamarmos isso de começo.

 

Eles têm eternidade,

mas nós temos segundos

que valem mais do que eras.

 

Eles têm poder,

mas nós temos a vertigem

de desejar sem garantia.

 

Eles movem astros,

mas não sabem o que é esperar

uma resposta simples

com o coração fazendo barulho

como se quisesse inaugurar o mundo.

 

E, se brincaram com o destino,

brincaram mal.

 

Porque não criaram apenas encanto.

 

Criaram reconhecimento.

 

Algo mais antigo do que vontade,

mais limpo do que fantasia,

mais sério do que uma paixão bonita

tentando se explicar.

 

Criaram essa certeza estranha

de que algumas pessoas

não entram na nossa vida:

acessam.

 

Como senha esquecida.

Como porta secreta.

Como música que o corpo reconhece

antes da memória saber cantar.

 

Você me acessou.

 

E desde então

há dimensões em mim

que só acendem

quando tua presença atravessa o pensamento.

 

Não é obsessão.

Obsessão estreita.

 

Isso amplia.

 

Abre janelas.

Levanta tetos.

Desarma cinismos.

Faz o futuro, esse animal desconfiado,

aproximar o focinho da minha mão.

 

E eu, que talvez já soubesse sobreviver,

comecei a desconfiar

que sobreviver era pouco.

 

Que viver talvez fosse outra coisa.

Algo com teu riso no horizonte.

Com tua mão possível.

Com uma casa ainda invisível

erguida não de paredes,

mas de cuidado, presença, partilha,

e essa delicadeza bruta

de querer ficar.

 

Não sei que entidade assinou isso.

 

Afrodite talvez sorrisse,

mas acharia simples demais.

Eros negaria envolvimento,

como todo culpado elegante.

As Moiras, velhas costureiras do impossível,

diriam que foi apenas um nó

dado no fio errado.

 

Mas eu desconfio

de algum deus sem nome,

um deus menor e genial,

desses que não aparecem em templos,

mas gostam de se esconder

em coincidências bem-feitas.

 

Ele deve ter olhado para nós

e pensado:

 

“Vamos ver

se ainda são capazes

de reconhecer beleza

sem fugir dela.”

 

E aqui estamos.

 

Você talvez sem saber

a extensão do que inaugurou.

 

Eu tentando não transformar

um sentimento imenso

numa coisa pesada.

 

Porque amar, quando é verdadeiro,

também aprende etiqueta diante do sagrado.

 

Não invade.

Não exige.

Não decreta destino

como quem põe algemas em estrela.

 

Amar assim

é acender uma lâmpada na janela

e deixar que a noite veja:

há calor aqui,

há verdade aqui,

há um lugar possível

para quem chegar por escolha.

 

Por isso não peço aos deuses

que te tragam.

 

Os deuses exageram.

São antigos, dramáticos,

péssimos com delicadezas humanas.

 

Peço apenas

que não atrapalhem.

 

Que deixem o tempo respirar.

Que não façam do medo um muro.

Que não confundam prudência com fuga.

Que permitam ao amor

essa rara chance

de nascer sem violência,

crescer sem pressa

e, um dia, se for justo,

encontrar as duas mãos abertas.

 

Porque se você vier,

não quero que venha vencida pelo destino.

 

Quero que venha livre.

 

Livre o bastante

para escolher ficar.

 

E se ficar,

que os deuses aprendam conosco

o que nunca entenderam direito:

 

que o amor mais forte

não é o que domina o céu,

mas o que sustenta a terra.

 

Não é raio.

É raiz.

 

Não é decreto.

É cuidado.

 

Não é capricho das estrelas.

É duas pessoas,

ainda frágeis, ainda humanas,

decidindo proteger juntas

aquilo que o universo,

num raro momento de beleza,

teve a ousadia de aproximar.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 08/05/2026
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