O sonho não era uma casa.
Era menos visível
e mais difícil.
Era fundar, entre duas vidas,
um espaço que não coubesse
nas medidas do mundo.
Um lugar sem endereço,
mas com chegada.
Sem parede,
mas com calor.
Sem posse,
mas com permanência.
A espécie rara de vínculo
em que a liberdade não se perde
ao tocar outra liberdade;
apenas descobre
uma forma mais profunda
de continuar livre.
Não era abrigo contra a vida.
Era abrigo dentro da vida.
Um campo onde o desejo
não precisasse pedir desculpas,
onde a paixão pudesse arder
sem transformar tudo em ruína,
onde o cuidado não virasse controle,
e a presença não se tornasse peso.
Um amor assim
não se impõe.
Ele cria clima.
Altera a pressão do ar.
Muda a temperatura dos dias.
Faz o corpo entender, antes da fala,
que há lugares humanos
onde a alma não precisa ficar armada.
Ali, o encontro não diminui ninguém.
Ao contrário:
abre.
Cada um permanece inteiro,
mas algo entre os dois
começa a respirar junto.
Não fusão que apaga.
Não distância que protege demais.
Entrelaçamento.
Essa arquitetura viva
em que duas histórias continuam sendo duas,
mas aprendem a sustentar
uma terceira coisa:
o amor acontecendo.
E talvez seja isso
o que se procura
quando se deseja tanto alguém.
Não apenas o rosto.
Não apenas o toque.
Não apenas a febre bonita
da aproximação.
Procura-se um campo
onde o amor tenha futuro.
Onde possa acordar sem medo,
atravessar a rotina sem empobrecer,
entrar na noite sem se perder,
e voltar, sempre voltar,
não por obrigação,
mas porque encontrou
um lugar raro para existir.
O sonho era esse:
não prender,
não dominar,
não convencer.
Apenas construir,
com liberdade e presença,
uma realidade tão íntima
que o amor, ao chegar,
não precisasse mais procurar morada.