Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

As palavras, às vezes, chegam tarde.

 

Ficam à porta,

bem vestidas,

educadas,

quase inúteis,

enquanto o coração já atravessou

o que elas ainda tentam nomear.

 

Há sentimentos

que desmontam o dicionário.

 

Os adjetivos se aproximam,

fazem reverência,

tentam servir —

mas nenhum sustenta

a grandeza simples

do que acontece em mim

quando tua presença me alcança.

 

Dizer beleza é pouco.

Dizer desejo é estreito.

Dizer ternura é apenas tocar a margem

de um oceano que ainda não revelou

seu fundo.

 

O que sinto

não se parece com o que vivi.

 

Não é o velho encanto

vestido com roupa nova.

Não é memória repetindo truques.

Não é saudade antecipada

nem paixão querendo parecer destino.

 

É outra matéria.

 

Uma espécie de luz

que não ilumina apenas:

reorganiza.

 

Uma música sem instrumento,

mas com poder bastante

para mudar o ritmo do sangue.

 

Um idioma sem gramática,

que a alma entende

antes que a boca encontre coragem.

 

Contigo,

o novo não é novidade.

 

É nascimento.

 

É como se alguma região de mim,

até então fechada,

tivesse esperado tua existência

para aprender a abrir.

 

E tudo o que antes parecia intenso

fica, de repente,

humilde.

 

Não menor por desprezo,

mas menor por comparação impossível.

 

Porque há experiências

que cabem na lembrança,

e há outras

que criam memória nova

no lugar onde nada havia.

 

Tu pertences a esse segundo mistério.

 

Não chegas como repetição

de amores antigos,

mas como inauguração de mundo.

 

Por isso, quando tento explicar,

falho com delicadeza.

 

Digo teu nome

e já disse menos do que sinto.

Falo de amor

e a palavra parece pequena,

quase tímida,

quase envergonhada

por ter sido usada tantas vezes

antes de te conhecer.

 

Talvez seja assim

quando alguém nos toca

numa profundidade sem arquivo:

a vida inteira procura referência

e não encontra.

 

O corpo lembra,

mas não compara.

 

A emoção reconhece,

mas não classifica.

 

A alma se inclina,

mas não traduz.

 

E eu fico diante disso

como quem encontra

uma constelação desconhecida

dentro do próprio peito.

 

Sem mapa.

Sem teoria.

Sem palavra bastante.

 

Apenas sabendo,

com essa certeza silenciosa

que dispensa explicação,

que existe em ti

algo raro demais

para ser reduzido

ao vocabulário comum dos encontros.

 

Se me perguntarem o que és,

talvez eu diga apenas:

 

és aquilo

diante do qual

minhas palavras aprendem humildade.

 

És o ponto exato

em que o desejo fica mais puro,

a ternura mais corajosa,

o coração mais vivo,

e o amor 

esse antigo nome gasto pelo mundo 

recupera, enfim,

o direito de parecer inédito.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 29/04/2026
Alterado em 07/05/2026
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