As palavras, às vezes, chegam tarde.
Ficam à porta,
bem vestidas,
educadas,
quase inúteis,
enquanto o coração já atravessou
o que elas ainda tentam nomear.
Há sentimentos
que desmontam o dicionário.
Os adjetivos se aproximam,
fazem reverência,
tentam servir —
mas nenhum sustenta
a grandeza simples
do que acontece em mim
quando tua presença me alcança.
Dizer beleza é pouco.
Dizer desejo é estreito.
Dizer ternura é apenas tocar a margem
de um oceano que ainda não revelou
seu fundo.
O que sinto
não se parece com o que vivi.
Não é o velho encanto
vestido com roupa nova.
Não é memória repetindo truques.
Não é saudade antecipada
nem paixão querendo parecer destino.
É outra matéria.
Uma espécie de luz
que não ilumina apenas:
reorganiza.
Uma música sem instrumento,
mas com poder bastante
para mudar o ritmo do sangue.
Um idioma sem gramática,
que a alma entende
antes que a boca encontre coragem.
Contigo,
o novo não é novidade.
É nascimento.
É como se alguma região de mim,
até então fechada,
tivesse esperado tua existência
para aprender a abrir.
E tudo o que antes parecia intenso
fica, de repente,
humilde.
Não menor por desprezo,
mas menor por comparação impossível.
Porque há experiências
que cabem na lembrança,
e há outras
que criam memória nova
no lugar onde nada havia.
Tu pertences a esse segundo mistério.
Não chegas como repetição
de amores antigos,
mas como inauguração de mundo.
Por isso, quando tento explicar,
falho com delicadeza.
Digo teu nome
e já disse menos do que sinto.
Falo de amor
e a palavra parece pequena,
quase tímida,
quase envergonhada
por ter sido usada tantas vezes
antes de te conhecer.
Talvez seja assim
quando alguém nos toca
numa profundidade sem arquivo:
a vida inteira procura referência
e não encontra.
O corpo lembra,
mas não compara.
A emoção reconhece,
mas não classifica.
A alma se inclina,
mas não traduz.
E eu fico diante disso
como quem encontra
uma constelação desconhecida
dentro do próprio peito.
Sem mapa.
Sem teoria.
Sem palavra bastante.
Apenas sabendo,
com essa certeza silenciosa
que dispensa explicação,
que existe em ti
algo raro demais
para ser reduzido
ao vocabulário comum dos encontros.
Se me perguntarem o que és,
talvez eu diga apenas:
és aquilo
diante do qual
minhas palavras aprendem humildade.
És o ponto exato
em que o desejo fica mais puro,
a ternura mais corajosa,
o coração mais vivo,
e o amor
esse antigo nome gasto pelo mundo
recupera, enfim,
o direito de parecer inédito.