Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Leia-me,

se algum dia houver coragem

para abrir este silêncio

como quem abre uma carta

guardada há muito tempo.

 

Leia-me sem pressa.

Sem defesa.

Sem medo de encontrar excesso

onde talvez exista apenas verdade

procurando uma forma decente

de se entregar.

 

Leia-me por dentro,

como se faz uma auditoria delicada

nas coisas que o coração não consegue

falsificar.

 

Examine meus gestos,

minhas pausas,

minhas palavras escolhidas com cuidado,

meus silêncios cheios de intenção,

essa vontade quase antiga

de estar perto

sem ocupar o teu espaço.

 

Procure em mim

a origem do desejo,

e talvez descubra

que ele não nasceu apenas do corpo,

mas de algo mais vasto:

uma ternura que te reconheceu

antes mesmo de saber

o que faria com tanta luz.

 

Investigue meus olhos

quando teu nome atravessa a conversa.

Há neles uma denúncia clara,

quase inocente,

de quem tenta parecer normal

enquanto carrega um incêndio

com modos de cavalheiro.

 

Reviste minhas vontades.

Vire do avesso meus sonhos.

Questione minhas promessas,

meus impulsos,

meus medos,

minha esperança às vezes ridícula

de que o amor, quando é limpo,

ainda possa encontrar caminho.

 

E, se encontrares vaidade,

retira.

Se encontrares pressa,

corrige.

Se encontrares fantasia demais,

traz-me de volta ao chão.

 

Mas se encontrares cuidado,

fica um pouco.

 

Se encontrares respeito,

não o confundas com frieza.

Se encontrares desejo,

não o julgues como ameaça.

Se encontrares intensidade,

vê se ela aprendeu a ser delicada

antes de bater à tua porta.

 

Porque tudo em mim,

quando pensa em ti,

quer ser melhor do que foi.

 

Quer amar sem pesar.

Quer desejar sem prender.

Quer chegar sem invadir.

Quer permanecer

sem transformar presença em cobrança.

 

Leia-me,

porque talvez eu esteja escrito

numa língua simples demais

para o tamanho do que sinto.

 

Talvez minhas melhores frases

ainda pareçam pequenas

diante dessa vontade enorme

de te cuidar nos dias comuns,

de rir contigo sem motivo,

de segurar tua mão

quando o mundo esquecer

como se trata uma mulher rara.

 

Não quero te oferecer

um amor impecável.

Amor impecável é vitrine:

bonito, frio, distante.

 

Quero te oferecer

um amor verdadeiro,

desses que aprendem,

que pedem desculpa,

que reparam detalhes,

que ficam quando o encanto

precisa virar presença.

 

Leia-me,

e se alguma parte minha

não for digna do teu coração,

que ela amadureça antes de te tocar.

 

Mas se houver em mim

algo que te faça bem,

algo que acalme teu cansaço,

algo que ilumine teu riso,

algo que te lembre

que ainda é possível ser amada

com beleza, cuidado e calma,

 

então guarda essa página.

 

Não como contrato,

não como promessa apressada,

não como destino imposto.

 

Guarda apenas como sinal:

há aqui um homem

que não quer apenas ser visto,

quer ser compreendido.

 

Um homem que não quer apenas desejar,

quer cuidar.

 

Um homem que não quer apenas amar,

quer aprender todos os dias

a merecer o privilégio

de estar ao teu lado.

 

Leia-me.

 

E, se depois de tudo

a tua alma sorrir em silêncio,

talvez não seja preciso dizer muito.

 

Bastará deixar

que o amor faça aquilo

que sempre quis fazer:

 

fluir.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 27/04/2026
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