Leia-me,
se algum dia houver coragem
para abrir este silêncio
como quem abre uma carta
guardada há muito tempo.
Leia-me sem pressa.
Sem defesa.
Sem medo de encontrar excesso
onde talvez exista apenas verdade
procurando uma forma decente
de se entregar.
Leia-me por dentro,
como se faz uma auditoria delicada
nas coisas que o coração não consegue
falsificar.
Examine meus gestos,
minhas pausas,
minhas palavras escolhidas com cuidado,
meus silêncios cheios de intenção,
essa vontade quase antiga
de estar perto
sem ocupar o teu espaço.
Procure em mim
a origem do desejo,
e talvez descubra
que ele não nasceu apenas do corpo,
mas de algo mais vasto:
uma ternura que te reconheceu
antes mesmo de saber
o que faria com tanta luz.
Investigue meus olhos
quando teu nome atravessa a conversa.
Há neles uma denúncia clara,
quase inocente,
de quem tenta parecer normal
enquanto carrega um incêndio
com modos de cavalheiro.
Reviste minhas vontades.
Vire do avesso meus sonhos.
Questione minhas promessas,
meus impulsos,
meus medos,
minha esperança às vezes ridícula
de que o amor, quando é limpo,
ainda possa encontrar caminho.
E, se encontrares vaidade,
retira.
Se encontrares pressa,
corrige.
Se encontrares fantasia demais,
traz-me de volta ao chão.
Mas se encontrares cuidado,
fica um pouco.
Se encontrares respeito,
não o confundas com frieza.
Se encontrares desejo,
não o julgues como ameaça.
Se encontrares intensidade,
vê se ela aprendeu a ser delicada
antes de bater à tua porta.
Porque tudo em mim,
quando pensa em ti,
quer ser melhor do que foi.
Quer amar sem pesar.
Quer desejar sem prender.
Quer chegar sem invadir.
Quer permanecer
sem transformar presença em cobrança.
Leia-me,
porque talvez eu esteja escrito
numa língua simples demais
para o tamanho do que sinto.
Talvez minhas melhores frases
ainda pareçam pequenas
diante dessa vontade enorme
de te cuidar nos dias comuns,
de rir contigo sem motivo,
de segurar tua mão
quando o mundo esquecer
como se trata uma mulher rara.
Não quero te oferecer
um amor impecável.
Amor impecável é vitrine:
bonito, frio, distante.
Quero te oferecer
um amor verdadeiro,
desses que aprendem,
que pedem desculpa,
que reparam detalhes,
que ficam quando o encanto
precisa virar presença.
Leia-me,
e se alguma parte minha
não for digna do teu coração,
que ela amadureça antes de te tocar.
Mas se houver em mim
algo que te faça bem,
algo que acalme teu cansaço,
algo que ilumine teu riso,
algo que te lembre
que ainda é possível ser amada
com beleza, cuidado e calma,
então guarda essa página.
Não como contrato,
não como promessa apressada,
não como destino imposto.
Guarda apenas como sinal:
há aqui um homem
que não quer apenas ser visto,
quer ser compreendido.
Um homem que não quer apenas desejar,
quer cuidar.
Um homem que não quer apenas amar,
quer aprender todos os dias
a merecer o privilégio
de estar ao teu lado.
Leia-me.
E, se depois de tudo
a tua alma sorrir em silêncio,
talvez não seja preciso dizer muito.
Bastará deixar
que o amor faça aquilo
que sempre quis fazer:
fluir.