Há amores que não chegam fazendo ruído.
Aproximam-se como luz de fim de tarde,
tocando primeiro as bordas do silêncio,
antes de revelar o tamanho do céu.
Não pedem pressa.
Não exigem resposta imediata.
Não confundem desejo com direito,
nem esperança com posse.
Apenas permanecem.
Como o mar diante de quem olha,
sabem que há movimentos
que não obedecem à vontade,
mas à profundidade.
Há um homem, em algum lugar da noite,
aprendendo que amar também é conter
sem diminuir,
esperar sem apagar,
sentir sem invadir.
Dentro dele, algo se move.
Não como ansiedade,
mas como promessa íntima
de uma vida que talvez encontre passagem.
Ele já não olha o futuro
com os mesmos olhos de antes.
Há uma possibilidade acesa,
uma casa ainda sem paredes,
uma mesa imaginada para dois silêncios,
um cuidado crescendo devagar
no lugar onde antes havia apenas distância.
E, no entanto, nada precisa ser forçado.
O verdadeiro amor não arromba portas;
aprende a reconhecer quando uma janela
começa a se abrir por dentro.
Por isso, esse sentimento espera
com a dignidade das coisas raras:
sem espetáculo,
sem cobrança,
sem transformar ternura em peso.
Espera como quem guarda uma chama
numa noite de vento,
não para escondê-la do mundo,
mas para que ela chegue viva
ao primeiro amanhecer.
Se um dia ela vier,
não encontrará pressa.
Encontrará presença.
Não encontrará um amor querendo vencer,
mas um amor querendo cuidar.
Não encontrará uma promessa alta demais,
mas um caminho possível,
feito de delicadeza, constância
e verdade suficiente
para atravessar os dias comuns.
Porque alguns sentimentos
não precisam correr
para serem intensos.
Basta que permaneçam.
Sem pressa.
Mas inteiros.