Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Hoje não durmo.

Não por tristeza,

mas por essa luz imprudente

que entrou pela fresta do impossível

e ficou acesa dentro de mim.

 

Há noites em que a esperança

não pede licença:

senta-se ao lado da cama,

sorri em silêncio

e começa a desenhar o teu nome

no teto escuro do quarto.

 

Eu, que tantas vezes aceitei

a distância como destino,

agora começo a desconfiar

que talvez o amor também saiba voltar,

que talvez o coração,

quando é verdadeiro,

não esteja esperando um milagre —

esteja apenas aguardando coragem.

 

E então te imagino.

Não como posse,

não como vitória,

não como troféu de um desejo antigo.

Te imagino livre,

inteira, luminosa,

chegando por vontade própria

ao lugar onde meu afeto

sempre guardou uma cadeira para ti.

 

Penso no que poderíamos construir:

uma casa feita de conversas,

um caminho feito de cuidado,

uma rotina simples

onde o extraordinário coubesse

no café dividido,

no riso inesperado,

na mão estendida

antes mesmo do pedido.

 

Eu queria te amar sem pressa,

com aquela delicadeza rara

de quem não quer apenas conquistar,

mas permanecer digno

de ser escolhido todos os dias.

 

Queria te oferecer

não um amor barulhento,

mas um amor atento;

não promessas de céu,

mas presença na terra;

não palavras perfeitas,

mas gestos que sobrevivessem

ao fim das frases.

 

Porque há em mim

um cuidado que ainda não encontrou destino,

um abraço que aprendeu a esperar,

uma ternura antiga

guardada como vinho bom

para a chegada certa.

 

E talvez seja isso

que hoje me rouba o sono:

não a certeza,

mas a possibilidade.

 

A possibilidade de que um dia

teus olhos me reconheçam

não como quem chega tarde,

mas como quem sempre esteve

preparando, em silêncio,

um lugar seguro

para o teu coração descansar.

 

E se esse amor se realizar,

não quero apenas te chamar de minha.

Quero poder dizer, com humildade,

que fui morada sem prisão,

calor sem incêndio,

presença sem peso,

e amor —

amor inteiro —

sem pedir que deixasses de ser quem és.

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 24/04/2026
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