Hoje não durmo.
Não por tristeza,
mas por essa luz imprudente
que entrou pela fresta do impossível
e ficou acesa dentro de mim.
Há noites em que a esperança
não pede licença:
senta-se ao lado da cama,
sorri em silêncio
e começa a desenhar o teu nome
no teto escuro do quarto.
Eu, que tantas vezes aceitei
a distância como destino,
agora começo a desconfiar
que talvez o amor também saiba voltar,
que talvez o coração,
quando é verdadeiro,
não esteja esperando um milagre —
esteja apenas aguardando coragem.
E então te imagino.
Não como posse,
não como vitória,
não como troféu de um desejo antigo.
Te imagino livre,
inteira, luminosa,
chegando por vontade própria
ao lugar onde meu afeto
sempre guardou uma cadeira para ti.
Penso no que poderíamos construir:
uma casa feita de conversas,
um caminho feito de cuidado,
uma rotina simples
onde o extraordinário coubesse
no café dividido,
no riso inesperado,
na mão estendida
antes mesmo do pedido.
Eu queria te amar sem pressa,
com aquela delicadeza rara
de quem não quer apenas conquistar,
mas permanecer digno
de ser escolhido todos os dias.
Queria te oferecer
não um amor barulhento,
mas um amor atento;
não promessas de céu,
mas presença na terra;
não palavras perfeitas,
mas gestos que sobrevivessem
ao fim das frases.
Porque há em mim
um cuidado que ainda não encontrou destino,
um abraço que aprendeu a esperar,
uma ternura antiga
guardada como vinho bom
para a chegada certa.
E talvez seja isso
que hoje me rouba o sono:
não a certeza,
mas a possibilidade.
A possibilidade de que um dia
teus olhos me reconheçam
não como quem chega tarde,
mas como quem sempre esteve
preparando, em silêncio,
um lugar seguro
para o teu coração descansar.
E se esse amor se realizar,
não quero apenas te chamar de minha.
Quero poder dizer, com humildade,
que fui morada sem prisão,
calor sem incêndio,
presença sem peso,
e amor —
amor inteiro —
sem pedir que deixasses de ser quem és.