Quando ouvi tua voz,
houve em mim um princípio.
Não desses começos ruidosos,
que pedem anúncio, claridade e espanto.
Foi um nascer discreto,
como se Deus, cansado de me ver ruína,
me tocasse sem mãos
e, pelo teu som,
me devolvesse o fôlego.
Tua voz não caiu em meus ouvidos.
Desceu mais fundo.
Foi ao lugar exato
onde a vida às vezes se recolhe
para não doer demais.
E ali,
no escuro mais íntimo,
algo se abriu.
Não sei se era amor ainda,
ou apenas o milagre
de reconhecer beleza
onde antes só havia cansaço.
Mas desde aquele instante
trago em mim essa estranha certeza:
há vozes que falam,
e há vozes que criam.
A tua
me refez.