Beijo teu rastro com os olhos,
e o mundo parece tirar o chapéu quando chegas;
minha vontade aprende passos antigos
só de ver o teu vestido conversando com o vento.
Escondo teu nome no forro do peito,
onde a moral não alcança nem a noite escuta;
sou contrabandista do teu brilho
passo fronteiras com teu perfume nos bolsos.
Te vejo linda, charmosa, elegante,
e algo primevo me chama pelo verdadeiro nome;
há um lobo de gravata sob minha calma,
domado apenas pelo risco da tua boca.
Ardes em mim como altar aceso,
incendeias meus mapas, corriges minhas rotas;
se me tocas com a ideia, viro incêndio disciplinado,
rezando ao teu corpo sem ajoelhar a carne.
Não conto a ninguém: segredo é lâmina polida.
Escrevo em silêncio para não ferir o milagre;
se o mundo pergunta, sorrio e minto com elegância
teu sim imaginado vale mais que seus julgamentos.
Intacto por fora, por dentro sou febre,
um cavalo em praça pública aprendendo a dançar devagar;
meu desejo, quase obsceno, fala baixo,
mas cada sílaba tua faz dele uma cidade em chamas.
Amo-te alto e calado:
lenha que não denuncia, voto que não vacila.
Se vires meus olhos, saberás:
guardo-te inteira no lugar onde a pele pensa.