INFINITOS VERSOS PARA UM INFINITO AMOR
É como se o universo tivesse respirado fundo
no instante em que teu nome tocou meu pensamento.
Desde então, tudo em mim perdeu o compasso:
o café esfria, as tarefas se desfazem,
e eu caminho pelas horas como um viajante
seguindo a luz secreta que vibra dentro dos teus olhos.
Não sei quando começou
se foi no traço distraído da tua boca,
na curva que teu gesto desenha no ar,
ou no silêncio em que tua presença
fez meu coração se ajoelhar sem que ninguém visse.
Só sei que, desde então,
meus dias deixaram de ser dias:
viraram órbitas ao redor de ti.
Há em ti algo de sagrado e indomável,
uma beleza que não cabe em nenhuma explicação.
E eu, pecador devoto,
te estudo em pequenos rituais:
a segurança frágil que há no teu andar,
o riso que abre janelas onde antes havia noite,
e o olhar que me lê como se conhecesse
todas as minhas versões — até as que escondo.
O que sinto por ti ultrapassa o que se nomeia desejo.
É desejo, sim
febril, cravado, incontornável
mas também é chamamento antigo,
eco de vidas que talvez tenhamos dividido
quando nem sabíamos falar de amor.
É algo que me toma por dentro,
como se tua alma tivesse encontrado a minha
por reconhecer sua própria sombra de luz.
Quero-te com a fome dos que renascem,
e com a fé dos que sabem esperar a eternidade.
Quero teus incêndios e teus invernos,
tuas manhãs exaustas e tuas madrugadas inquietas.
Quero ser o chão que te sustenta
e o céu no qual teu cansaço repousa.
Quero tocar tua pele, sim
mas mais ainda, quero tocar o lugar
onde tu guardas o que ninguém vê.
Pois teu corpo me chama,
mas é tua alma que me aprisiona de verdade.
Eu te desejo como quem quer fundir
cada cicatriz, cada medo, cada memória tua
ao mapa secreto do meu próprio existir.
Se pudesse, te tomaria nos braços
não para reter,
mas para te devolver inteira
à grandeza que o mundo tenta reduzir.
E, ainda assim, há em mim
esse instinto feroz e honesto:
a vontade de te possuir por completo,
de fazer da tua respiração meu abrigo,
do teu corpo o templo onde meu desejo
se curva sem perder o respeito.
É paixão, é carne, é chama
mas também é alma, raiz, destino.
Os dias seguem… dizem que sim.
Relógios repetem seus dogmas,
o mundo exige atenção.
Mas eu falho:
no meio de uma frase, lembro do teu sorriso;
no meio de um relatório, imagino teus ombros nus;
no meio da rua, sinto teus dedos
entrelaçando os meus que ainda não te têm.
Funciono , mas não vivo.
Viver, agora, é estar onde tu estás.
Talvez seja loucura, talvez seja destino,
mas é meu
e é vasto.
Quando fecho os olhos, não peço pouco:
não peço uma noite breve,
nem um amor que o tempo amacia.
Peço tudo:
os dias, as tempestades, as rugas futuras,
o silêncio compartilhado,
a eternidade inteira vestida do teu nome.
Quero possuir-te
mas apenas do modo que não destrói:
sendo teu também,
num pacto sem testemunhas
que atravessa vidas e retornos.
Quero que o mundo jamais entenda,
que o tempo jamais consiga apagar,
que o destino jamais consiga desfazer
esse laço que minha alma reconheceu antes de mim.
E se um dia alguém perguntar
por que meus dias perderam a forma,
por que meus passos vivem distraídos,
por que meus olhos procuram
um ponto que ninguém mais vê,
vou apenas sorrir.
Porque a verdade é tão simples quanto devastadora:
desde que te encontrei,
vivo escrevendo infinitos versos
para um amor que não cabe no tempo
um infinito amor
que nasceu para me levar contigo
além de mim.