Inconfesso
Te vejo e calo.
Te desejo e finjo distração.
É dor que arde sem ferir,
é febre que ensina a respirar.
O mundo fala de acaso
eu sei que é destino,
mas me disfarço de acaso também.
Nos sonhos, te tenho inteira,
nas horas, te perco em fragmentos.
E sigo
com a alma em brasas
e o corpo imóvel,
carregando um amor que ninguém suspeita,
mas que incendeia o que resta de mim.
Tu sabes
vejo no canto do teu sorriso,
no gesto que ajeita o cabelo.
Te envaidece minha chama;
aqueces as mãos e me deixas arder sozinho.
Respondes com elegância, atrasas com doçura,
colhes a oferta e guardas a distância.
Preferes o conforto do talvez,
o verniz das aparências,
ao risco do mergulho.
E eu, prisioneiro do teu silêncio
amo o impossível que em ti
se sabe possível.