Há momentos em que a vida se inclina por dentro,
como se um sopro antigo desafiasse o rumo
e pedisse ao corpo uma coragem não treinada.
Não é escolha, nem resposta
é um estremecer que nasce antes do pensamento.
O que chamam de amor talvez seja isso:
o risco de atravessar uma ponte
enquanto ela ainda está sendo construída,
sentindo, sob os pés, a madeira ceder
e, ainda assim, continuar.
E há também o contrário
um porto antes seguro, agora silencioso,
onde as marés já não obedecem meu nome.
Ali, permaneço por hábito,
como quem segura a própria sombra
para não admitir que o sol mudou de lugar.
Fugir seria simples, previsível,
mas o coração raramente escolhe o caminho mais óbvio.
Ele apenas percebe a mudança do vento
e entende que certas velas não podem mais ser içadas.
E então surge aquilo que não ouso nomear
uma presença tão leve que quase não pesa,
mas que encurva a rota inteira de um destino.
Não sei se é promessa, acaso ou assombro,
mas há um brilho ali
tão recém-nascido que qualquer toque faria desmanchar.
Mesmo assim, algo em mim avança,
como se reconhecesse no desconhecido
um eco que há muito esperava ser respondido.
Talvez seja coragem;
talvez seja apenas o corpo recordando
onde a alma sempre quis repousar.
E o mundo chama isso de fuga.
Eu chamaria de retorno
a um lugar onde nunca estive,
mas cujo contorno pulsa em mim
como se sempre tivesse sido casa.