Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

 

Há momentos em que a vida se inclina por dentro,

como se um sopro antigo desafiasse o rumo

e pedisse ao corpo uma coragem não treinada.

Não é escolha, nem resposta

é um estremecer que nasce antes do pensamento.

 

O que chamam de amor talvez seja isso:

o risco de atravessar uma ponte

enquanto ela ainda está sendo construída,

sentindo, sob os pés, a madeira ceder

e, ainda assim, continuar.

 

E há também o contrário

um porto antes seguro, agora silencioso,

onde as marés já não obedecem meu nome.

Ali, permaneço por hábito,

como quem segura a própria sombra

para não admitir que o sol mudou de lugar.

 

Fugir seria simples, previsível,

mas o coração raramente escolhe o caminho mais óbvio.

Ele apenas percebe a mudança do vento

e entende que certas velas não podem mais ser içadas.

 

E então surge aquilo que não ouso nomear

uma presença tão leve que quase não pesa,

mas que encurva a rota inteira de um destino.

Não sei se é promessa, acaso ou assombro,

mas há um brilho ali

tão recém-nascido que qualquer toque faria desmanchar.

 

Mesmo assim, algo em mim avança,

como se reconhecesse no desconhecido

um eco que há muito esperava ser respondido.

Talvez seja coragem;

talvez seja apenas o corpo recordando

onde a alma sempre quis repousar.

 

E o mundo chama isso de fuga.

Eu chamaria de retorno

a um lugar onde nunca estive,

mas cujo contorno pulsa em mim

como se sempre tivesse sido casa.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 28/12/2025
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