Quando o Destino Decide Arder
No instante em que o alvorecer rasga o silêncio,
uma barca ergue-se da névoa como quem renasce aflita,
carregada por espumas que tremem
sob a intensidade do que ainda não aconteceu.
Não há rio para guiá-la —
há o magnetismo das tuas mãos que ainda não tocaram as minhas,
e mesmo assim me puxam com a urgência
de quem sabe que fomos traçados um para o outro
antes de termos nome.
Sinto-te no ar — não como ideia,
mas como força viva, elétrica, indomável,
uma promessa tão intensa
que chega a doer de tão futura.
O contorno do teu rosto surge na névoa
não para ser visto,
mas para incendiar-me com o anúncio
de que algo maior que nós nos escolheu.
O mistério não espera:
ele convoca,
ele exige,
ele ascende.
E quando a barca finalmente me alcança,
não traz passado algum
traz o abalo de um encontro que já nasce inevitável.
As águas estremecem como se abrissem caminho
para o que só o amor sabe realizar,
as nuvens se curvam como testemunhas antigas,
e o próprio universo parece conter o fôlego
à espera do momento em que teu toque
irá completar o que começou no invisível.
Então compreendo: teu rastro não vem do antes,
vem do que arde por nascer.
Vem do que vibra no espaço estreito
entre o agora e o que seremos.
Porque este oceano que te chama,
que me leva, que nos cria,
não está fora
ele está nascendo em nós,
crescendo com a força inevitável
do amor que não pede permissão:
simplesmente acontece,
e quando acontece,
incendeia tudo.