Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Trégua com o Quase

 

Cansei de esperas que me explicam o mundo

e não me alcançam.

De relógios que me pedem paciência

enquanto a vida boceja nos bancos das estações.

Carreguei flores até o fim de muitas tardes

para entregá-las ao vento.

 

Dispenso os encontros ocasionais,

as promessas de bolso,

os abraços que pedem senha.

Aprendi a reconhecer o brilho dos atalhos:

iluminam pouco, cobram caro,

deixam a alma com fome.

 

Hoje não peço epifanias: peço presença.

Quero ser amado como mereço —

com a calma que não foge do meu silêncio,

com o tato de quem conhece cicatrizes

e não conclui por elas,

com a alegria simples de quem chega

e não procura saída.

 

Não construirei casas em terrenos de talvez,

não farei fogueiras para quem passa com frio

e chama de acaso o meu calor.

Não perseguirei ninguém.

Ficarei inteiro:

porta sem truques, mesa posta,

meu nome limpo na maçaneta.

 

Há cansaços que são oração.

O meu hoje é uma trégua:

deito a armadura, recolho os faróis,

deixo o coração respirar sem alarme.

 

E, no entanto, há uma brasa que não se rende.

Entre o fim da noite e o primeiro pássaro,

sinto o futuro encostar de leve na janela —

um rumor de passos que não apressarei.

Quando vier, que venha por querer,

e encontre a casa acesa.

 

Até lá, descanso.

Mas não apago a luz.

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 16/11/2025
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