Trégua com o Quase
Cansei de esperas que me explicam o mundo
e não me alcançam.
De relógios que me pedem paciência
enquanto a vida boceja nos bancos das estações.
Carreguei flores até o fim de muitas tardes
para entregá-las ao vento.
Dispenso os encontros ocasionais,
as promessas de bolso,
os abraços que pedem senha.
Aprendi a reconhecer o brilho dos atalhos:
iluminam pouco, cobram caro,
deixam a alma com fome.
Hoje não peço epifanias: peço presença.
Quero ser amado como mereço —
com a calma que não foge do meu silêncio,
com o tato de quem conhece cicatrizes
e não conclui por elas,
com a alegria simples de quem chega
e não procura saída.
Não construirei casas em terrenos de talvez,
não farei fogueiras para quem passa com frio
e chama de acaso o meu calor.
Não perseguirei ninguém.
Ficarei inteiro:
porta sem truques, mesa posta,
meu nome limpo na maçaneta.
Há cansaços que são oração.
O meu hoje é uma trégua:
deito a armadura, recolho os faróis,
deixo o coração respirar sem alarme.
E, no entanto, há uma brasa que não se rende.
Entre o fim da noite e o primeiro pássaro,
sinto o futuro encostar de leve na janela —
um rumor de passos que não apressarei.
Quando vier, que venha por querer,
e encontre a casa acesa.
Até lá, descanso.
Mas não apago a luz.