Gratidão ao que me atravessou
Sou grato, ainda que não saiba nomear.
Há forças que me tocaram sem pedir licença,
como quem risca fogo em madeira antiga
e deixa apenas o suficiente para que eu não esqueça
de onde vim — e para onde decidi não voltar.
Sou grato ao que quase me quebrou,
porque o “quase” ensina mais do que a queda inteira.
Há rachaduras que revelam caminhos,
e foi por elas que vi luz entrar
quando eu jurava que a noite seria definitiva.
Agradeço também o que não ficou,
aquilo que me soltou as mãos
antes que eu percebesse que elas estavam presas.
Às vezes, perder é o verbo secreto da libertação,
e só entende quem já caminhou mancando.
Sou grato ao gesto que chegou suave,
sem prometer constelações,
mas que, ainda assim, acendeu estrelas em minhas margens.
Não sei explicar — certas presenças
nos devolvem o que nunca aprendemos a pedir.
Agradeço à vida por me ensinar a escutar aquilo
que não fala: o silêncio que consola,
o vento que repete meu nome sem me exigir nada,
a coragem miúda que nasce no peito
quando já não se espera mais por milagres.
E agradeço, sobretudo,
ao que despertou em mim enquanto eu lutava
contra o que julgava ser o fim.
Há renascimentos que não fazem barulho,
mas alteram tudo de lugar — inclusive eu.
Se hoje sou feito de claridades,
é porque as sombras cumpriram seu ofício.
E se agradeço, é porque enfim compreendi
que cada dor, cada ausência e cada quase
me prepararam para o instante em que pude dizer:
eu permaneço — e, apesar de tudo, floresço.