Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Gratidão ao que me atravessou

 

Sou grato, ainda que não saiba nomear.

Há forças que me tocaram sem pedir licença,

como quem risca fogo em madeira antiga

e deixa apenas o suficiente para que eu não esqueça

de onde vim — e para onde decidi não voltar.

 

Sou grato ao que quase me quebrou,

porque o “quase” ensina mais do que a queda inteira.

Há rachaduras que revelam caminhos,

e foi por elas que vi luz entrar

quando eu jurava que a noite seria definitiva.

 

Agradeço também o que não ficou,

aquilo que me soltou as mãos

antes que eu percebesse que elas estavam presas.

Às vezes, perder é o verbo secreto da libertação,

e só entende quem já caminhou mancando.

 

Sou grato ao gesto que chegou suave,

sem prometer constelações,

mas que, ainda assim, acendeu estrelas em minhas margens.

Não sei explicar — certas presenças

nos devolvem o que nunca aprendemos a pedir.

 

Agradeço à vida por me ensinar a escutar aquilo

que não fala: o silêncio que consola,

o vento que repete meu nome sem me exigir nada,

a coragem miúda que nasce no peito

quando já não se espera mais por milagres.

 

E agradeço, sobretudo,

ao que despertou em mim enquanto eu lutava

contra o que julgava ser o fim.

Há renascimentos que não fazem barulho,

mas alteram tudo de lugar — inclusive eu.

 

Se hoje sou feito de claridades,

é porque as sombras cumpriram seu ofício.

E se agradeço, é porque enfim compreendi

que cada dor, cada ausência e cada quase

me prepararam para o instante em que pude dizer:

eu permaneço — e, apesar de tudo, floresço.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 14/11/2025
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