Entre o que me prende e o que me chama
Há um gesto de luz me oferecendo manhãs
— macias, leves, quase inocentes —
promessas de que o mundo ainda pode recomeçar.
E, ao mesmo tempo, há mãos invisíveis
que me seguram pelo nome,
me fecham em quartos onde o ar pesa
como se eu devesse desculpas à própria vida.
Caminho assim: dividido.
De um lado, a voz que me ergue
com sonhos que reconhecem meu rosto;
do outro, o silêncio que me exige culpa
e me mantém curvado diante de sombras antigas.
É estranho: o que me condena me conhece,
o que me salva apenas sente — e mesmo assim me entende.
Às vezes penso que sou feito de dois mundos,
e que um deles tenta me ensinar a morrer devagar,
enquanto o outro me sussurra que ainda sei nascer.
E é nesse intervalo, nessa brecha entre ferida e sopro,
que descubro que ainda respiro.
Não sei para onde vou,
mas começo a perceber que ninguém permanece acorrentado
quando aprende a ouvir o chamado da própria alma.
Talvez a dor seja apenas a última porta
antes da esperança entrar.
E, se um dia eu escolher a mão que me oferece leveza,
não será fuga — será retorno.
A mim mesmo.
Ao que finalmente me liberta.