Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

Entre o que me prende e o que me chama

 

Há um gesto de luz me oferecendo manhãs

— macias, leves, quase inocentes —

promessas de que o mundo ainda pode recomeçar.

E, ao mesmo tempo, há mãos invisíveis

que me seguram pelo nome,

me fecham em quartos onde o ar pesa

como se eu devesse desculpas à própria vida.

 

Caminho assim: dividido.

De um lado, a voz que me ergue

com sonhos que reconhecem meu rosto;

do outro, o silêncio que me exige culpa

e me mantém curvado diante de sombras antigas.

É estranho: o que me condena me conhece,

o que me salva apenas sente — e mesmo assim me entende.

 

Às vezes penso que sou feito de dois mundos,

e que um deles tenta me ensinar a morrer devagar,

enquanto o outro me sussurra que ainda sei nascer.

E é nesse intervalo, nessa brecha entre ferida e sopro,

que descubro que ainda respiro.

 

Não sei para onde vou,

mas começo a perceber que ninguém permanece acorrentado

quando aprende a ouvir o chamado da própria alma.

Talvez a dor seja apenas a última porta

antes da esperança entrar.

 

E, se um dia eu escolher a mão que me oferece leveza,

não será fuga — será retorno.

A mim mesmo.

Ao que finalmente me liberta.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 13/11/2025
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