Cântico para um Último Dia
Hoje acordei cansado da aurora.
O sol pareceu um esforço,
a luz, um fardo que o corpo não quis carregar.
As paredes respiram comigo,
lentas, doentes, como se também esperassem
que o tempo se esquecesse de continuar.
Há um som grave nas coisas quietas,
um murmúrio de adeus em cada vento.
As flores da mesa — velhas sobreviventes —
fingem perfume, mas cheiram a lembrança.
E eu, pequeno no vasto da existência,
conto respirações como quem colhe despedidas.
O mundo continua, indiferente:
os pássaros, fiéis, seguem cantando
a música que não entendo mais.
Há beleza, sim — mas distante,
como uma estrela que brilha demais
para ainda aquecer.
A alma dói num lugar que o corpo não alcança.
Um peso antigo se assenta nas costelas,
como se a tristeza tivesse encontrado casa.
Não peço cura — já não há remédio
para quem se tornou ausência em si mesmo.
Apenas silêncio.
Apenas o desejo manso de não estar,
de repousar num campo onde o tempo se dissolve,
onde o amor não precisa do corpo,
onde tudo, enfim, pára de doer.
E se houver um céu —
que seja sem memórias.
Que o último sopro seja leve,
como quem fecha os olhos
e, enfim, entende
que morrer também é um modo de voltar ao começo.