Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links
Textos

Cântico para um Último Dia

 

Hoje acordei cansado da aurora.

O sol pareceu um esforço,

a luz, um fardo que o corpo não quis carregar.

As paredes respiram comigo,

lentas, doentes, como se também esperassem

que o tempo se esquecesse de continuar.

 

Há um som grave nas coisas quietas,

um murmúrio de adeus em cada vento.

As flores da mesa — velhas sobreviventes —

fingem perfume, mas cheiram a lembrança.

E eu, pequeno no vasto da existência,

conto respirações como quem colhe despedidas.

 

O mundo continua, indiferente:

os pássaros, fiéis, seguem cantando

a música que não entendo mais.

Há beleza, sim — mas distante,

como uma estrela que brilha demais

para ainda aquecer.

 

A alma dói num lugar que o corpo não alcança.

Um peso antigo se assenta nas costelas,

como se a tristeza tivesse encontrado casa.

Não peço cura — já não há remédio

para quem se tornou ausência em si mesmo.

 

Apenas silêncio.

Apenas o desejo manso de não estar,

de repousar num campo onde o tempo se dissolve,

onde o amor não precisa do corpo,

onde tudo, enfim, pára de doer.

 

E se houver um céu —

que seja sem memórias.

Que o último sopro seja leve,

como quem fecha os olhos

e, enfim, entende

que morrer também é um modo de voltar ao começo.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 13/11/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Contato Links