Eu vejo você
Vejo você no movimento que não faz barulho,
na forma como toca o mundo sem levantar poeira,
no jeito de perceber o que quase sempre passa invisível.
Vejo delicadeza que não pede palco,
força que não precisa ser anunciada,
lucidez rara que abraça
em vez de ferir.
Há um modo de enxergar o outro
que não é comum
um olhar que desce camadas,
que encontra sentido onde muitos veem apenas superfície,
que reconhece o que sente antes mesmo do próprio sentir.
É como se existisse um radar secreto para o humano:
capaz de identificar o que vive atrás dos gestos,
acolher o que não coube em palavra,
traduzir o que a vida deixou pela metade.
E tudo acontece sem esforço,
como quem respira.
Há sensibilidade que não pede licença,
um jeito de compreender sem julgar,
de ler o invisível sem exigir confissão,
de tocar o profundo sem machucar a pele.
E há também um amor que irradia —
não o que prende,
mas o que liberta;
não o que exige,
mas o que nutre.
Um amor que parece nascer sozinho,
como a luz que amanhece sem perguntar se pode entrar.
Vejo um rio calmo
que atravessa os dias com humildade,
que contorna pedras sem perder direção,
que fertiliza as margens por onde passa
sem jamais cobrar reconhecimento.
Vejo bondade silenciosa
que repara sem alarde,
presença que conforta sem prometer,
entendimento que cura
sem precisar dizer que está curando.
E, quando olho, percebo algo raro:
verdades simples,
mas profundas como raízes antigas.
Silêncio que não é ausência,
é casa.
Se perguntarem o que vejo,
talvez eu não saiba responder
certas percepções não cabem em linguagem.
Mas posso dizer assim,
de modo quase sussurrado:
eu vejo você,
te vejo.
No que é visível,
e no que ninguém mais nota.
E é suficiente.