O Silêncio Antes do Tudo
“Não pense em nada”, dizem —
como se o nada fosse um travesseiro macio
onde a mente deitasse em paz.
Mas o nada é inquieto.
Tem olhos que não dormem
e uma voz que sussurra:
“de mim nasceu o universo”.
O nada é o primeiro deus,
o ventre que gestou o tempo,
o intervalo entre um sopro e outro
antes que o verbo ousasse existir.
É o útero do caos,
onde a matéria ensaia ser forma,
e o silêncio ainda não aprendeu a ser som.
Pensar no nada é desafiar a origem —
é tentar ver o escuro
com os olhos que ele mesmo inventou.
É querer capturar o invisível
com redes de pensamento.
E o pensamento, coitado,
escorrega —
porque o nada não se deixa prender.
O nada é a casa dos deuses antes dos nomes,
a sombra onde a luz se esconde.
É o intervalo sagrado
entre o último suspiro e o primeiro amanhecer.
Quem o toca, enlouquece;
quem o teme, repete.
Mas quem o contempla, entende:
do nada brota tudo,
e tudo, um dia, retorna para lá —
para o mesmo silêncio
que um dia quis aprender a cantar.
Por isso, talvez,
descansar seja apenas lembrar
que somos parte desse mistério:
que entre um pensamento e outro,
há o espaço onde o infinito respira.
E nesse breve nada —
o mais pleno de todos os lugares —
a alma, enfim, encontra repouso.