Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O Silêncio Antes do Tudo

 

“Não pense em nada”, dizem —

como se o nada fosse um travesseiro macio

onde a mente deitasse em paz.

Mas o nada é inquieto.

Tem olhos que não dormem

e uma voz que sussurra:

“de mim nasceu o universo”.

 

O nada é o primeiro deus,

o ventre que gestou o tempo,

o intervalo entre um sopro e outro

antes que o verbo ousasse existir.

É o útero do caos,

onde a matéria ensaia ser forma,

e o silêncio ainda não aprendeu a ser som.

 

Pensar no nada é desafiar a origem —

é tentar ver o escuro

com os olhos que ele mesmo inventou.

É querer capturar o invisível

com redes de pensamento.

E o pensamento, coitado,

escorrega —

porque o nada não se deixa prender.

 

O nada é a casa dos deuses antes dos nomes,

a sombra onde a luz se esconde.

É o intervalo sagrado

entre o último suspiro e o primeiro amanhecer.

Quem o toca, enlouquece;

quem o teme, repete.

Mas quem o contempla, entende:

do nada brota tudo,

e tudo, um dia, retorna para lá —

para o mesmo silêncio

que um dia quis aprender a cantar.

 

Por isso, talvez,

descansar seja apenas lembrar

que somos parte desse mistério:

que entre um pensamento e outro,

há o espaço onde o infinito respira.

E nesse breve nada —

o mais pleno de todos os lugares —

a alma, enfim, encontra repouso.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 05/11/2025
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