O Barco da Alma
Não é a profissão que nos define,
é o rumo que o coração insiste em lembrar.
A vocação não mora no diploma,
mas na chama antiga
que se acende quando fazemos
o que fomos criados para amar.
Há um mar dentro de cada um —
às vezes manso, às vezes revolto —
mas sempre chamando pelo nome certo.
Quem o ouve não se perde,
mesmo sob tempestades,
pois sabe ajustar as velas,
não as ilusões.
A alma fala baixo,
em murmúrios que o barulho do mundo encobre.
Ela não impõe, convida.
Não grita, revela.
E se não a escutamos,
adoecemos do silêncio que criamos.
Viver de aparências é viver de empréstimo,
é atuar em um palco
onde o personagem sufoca o ser.
Mas há um instante em que a máscara racha,
e do estilhaço brota o verdadeiro rosto.
Ali nasce o reencontro,
a coragem de ser inteiro.
Crescer é alinhar o sentir e o viver,
o pensar e o agir,
sem disfarces,
sem medo de brilhar diferente.
Pois o “Si-mesmo”,
como dizia Jung,
é o todo que respira em nós —
a centelha que contém o universo.
Encontrar-se é regressar à origem,
não pela estrada dos outros,
mas pela rota que o espírito traçou.
Não somos o papel que interpretamos,
somos o verbo que cria.
E quando deixamos o coração guiar,
descobrimos:
não navegamos no mar da vida,
somos o próprio barco,
a própria vela,
e o vento que nos leva ao eterno.