Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Textos

O Barco da Alma

 

Não é a profissão que nos define,

é o rumo que o coração insiste em lembrar.

A vocação não mora no diploma,

mas na chama antiga

que se acende quando fazemos

o que fomos criados para amar.

 

Há um mar dentro de cada um —

às vezes manso, às vezes revolto —

mas sempre chamando pelo nome certo.

Quem o ouve não se perde,

mesmo sob tempestades,

pois sabe ajustar as velas,

não as ilusões.

 

A alma fala baixo,

em murmúrios que o barulho do mundo encobre.

Ela não impõe, convida.

Não grita, revela.

E se não a escutamos,

adoecemos do silêncio que criamos.

 

Viver de aparências é viver de empréstimo,

é atuar em um palco

onde o personagem sufoca o ser.

Mas há um instante em que a máscara racha,

e do estilhaço brota o verdadeiro rosto.

Ali nasce o reencontro,

a coragem de ser inteiro.

 

Crescer é alinhar o sentir e o viver,

o pensar e o agir,

sem disfarces,

sem medo de brilhar diferente.

Pois o “Si-mesmo”,

como dizia Jung,

é o todo que respira em nós —

a centelha que contém o universo.

 

Encontrar-se é regressar à origem,

não pela estrada dos outros,

mas pela rota que o espírito traçou.

Não somos o papel que interpretamos,

somos o verbo que cria.

E quando deixamos o coração guiar,

descobrimos:

não navegamos no mar da vida,

somos o próprio barco,

a própria vela,

e o vento que nos leva ao eterno.

 

 

Jaìr A Paùlétto
Enviado por Jaìr A Paùlétto em 02/11/2025
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