A que habita meus silêncios não chega — desperta.
Surge como brisa que antecede a tempestade,
como o arrepio que anuncia o toque
antes que o corpo o reconheça.
Não fala — sussurra no sangue.
Não me beija — acende.
Seu perfume é memória de um paraíso esquecido,
seu olhar, promessa de reencarnação.
Traz no gesto a delicadeza das manhãs
e o fogo que consome as madrugadas.
É feita de ternura e vertigem,
de calma e de abismo.
E quando se aproxima,
a razão se despe, sem pudor,
para aprender o idioma da alma.
Não me aprisiona — me reclama.
É casa, e ao mesmo tempo, exílio.
Seus silêncios são orações que o corpo entende,
seus toques, evangelhos do desejo.
Reina em mim, não por domínio,
mas por mistério.
Seu poder é a entrega,
sua coroa — o instante em que o amor se faz carne
sem deixar de ser luz.
Não é perfeita — é humana.
Ama com o ardor das marés,
vive com a devoção das estrelas,
e mesmo que eu ainda não saiba quem é,
sei que quando chegar,
meu espírito e meu corpo
se reconhecerão —
como quem regressa ao primeiro amor do universo