O Coração que Lê
Publico o poema — e ele parte,
pássaro de tinta buscando abrigo.
Mas cada olhar lhe dá um rosto,
cada alma lhe empresta um destino.
Quem o lê com sombra, vê um eclipse;
quem o lê com medo, encontra abismos;
quem o lê cansado, só vê noite;
quem o lê ferido, sangra nos ritmos.
Poemas são espelhos d’água:
refletem o céu que o leitor carrega.
Se há tempestade, eles se agitam;
se há bonança, viram clareza.
Mas há versos que guardo num cofre
feito de silêncio e respiração.
Neles escondi um amor sem ruído,
uma chama que não pede perdão.
Para entender esse lume secreto
não basta a técnica, nem o saber:
é preciso um coração lavado,
sem truques, disposto a crer.
Só quem ama com mãos desarmadas
ouve o que o poema não diz;
lê a luz entre as palavras
e percebe: o amor é o que escreve —
o resto, apenas o que se lê.