Na cama, o escuro respira comigo.
Teu cheiro — mistura de febre e eternidade —
permanece nas dobras do lençol,
como segredo que o corpo não confessa,
mas o coração reconhece.
Procuro-te entre os ecos da noite,
onde o silêncio geme teu nome
e cada lembrança é labareda que volta a acender.
O quarto inteiro arde,
e minha pele reza em murmúrios,
implorando o toque que o tempo levou.
Fui nau, fui tempestade,
fui chama que quis ser sol.
Agora sou brasa que ainda sonha
com o sopro que a fez nascer.
Porque o amor, quando é verdadeiro,
não termina — apenas muda de temperatura.
E então, a madrugada se rompe.
A luz chega como língua de ouro,
tocando o que restou de ti em mim.
Descubro que o desejo é ponte,
e o prazer, revelação.
Que a carne, quando cede,
não se entrega: se liberta.
Amanheço em ti, mesmo ausente.
Teu nome vibra no ar,
não como lembrança,
mas como frequência —
uma prece que o corpo entoa sem voz.
E ali, entre o fogo e a aurora,
entendo:
amar é arder até virar luz,
é incendiar-se até o próprio inferno se render,
é morrer de gozo
para renascer sagrado.