Ele navegava mares novos,
onde o vento ainda não tinha nome.
E ao dobrar uma baía sem mapa,
viu uma sereia —
e o tempo esqueceu de passar.
Ela sorria como o sol sobre a água,
e o mar inteiro curvava-se
para ouvir sua respiração.
Atração antiga, reencontro de eras —
duas almas recordando-se
em corpos de mundos distintos.
Ela, filha das ondas e dos silêncios,
cuidava da vida que respira no sal.
Ele, guardião dos corais e da ciência,
sabia que amá-la
era desafiar o próprio Criador.
Ainda assim, amou.
Porque há amores
que nascem da memória das estrelas
e não pedem permissão para existir.
Sabiam que vinham de longe,
de um tempo em que ser e sentir
eram a mesma coisa.
Mas sabiam também que cada encontro
cobra um preço —
e o amor, por vezes, é a dívida
que a alma aceita contrair.
Viviam o instante como eternidade,
sabendo que o eterno, um dia,
cobra o instante perdido.
Preferiram pagar depois,
e amar agora.
E assim seguiram —
ela, canto e correnteza;
ele, corpo e consciência.
Dois seres que o destino separa
apenas para que se reencontrem
melhores, mais fortes,
mais prontos para a Luz.
E se um dia o mar silenciar,
ainda haverá um eco
nas profundezas do tempo:
o amor deles,
infinito e manso,
cumprindo sua maré.