Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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           Dor

 

    Pensar em dor já dói, no mínimo é desagradável, sentir dor é certamente a pior das experiências humanas, pelo menos no meu ponto de vista. Claro que, no momento, falo isso por ter passado os últimos dias, sentindo-a constantemente, em níveis variáveis, obviamente,  do tolerável ao insuportável, mas sempre dor. Ela sempre é desagradável, me desculpem os masoquistas, seja física ou psicologicamente, é o instrumento mais agressivo da nosssa vida. É o que mais fragiliza o ser humano. Mas a dor trás mais que o sofrimento, trás, invariavelmente, o desejo de ver-se livre dela, o desejo de mudança, de viver melhor, de melhorar e melhorar-se. Também trás o medo, a alegria, a serenidade e, implicitamente, o convite à reflexão. Vivi tudo isso e mais um pouco nesses últimos dias, posso até afirmar que vai muito além, alcança o âmago da individualidade, entretanto, isso é pessoal, portanto de diferente manifestação em cada individualidade.

    Dizem que a dor é um processo necessários ao crescimento, o que discordo totalmente, acho que existem outras alternativas, embora essas necessitem de força de vontade. Eu optei, mesmo que de forma repentina, conscientemente pela alternativa, aliás a única, que poderia me trazer dor, que logo se mostrou muito maior que o esperado, no entanto, nesse processo não existe volta. Me submeti a uma intervenção cirúrgica de forma “voluntária”, assinei vários termos de responsabilidade, praticamente isentei ou autorizei médicos e hospital a me matarem sem poder me queixar, o que morto obviamente não poderia faze-lo, mas diante de tanta proteção jurídica qualquer paciente fica inseguro. Enfim, fui levado a concluir e aceitar que seria o melhor para minha própria saúde, passar por um momento doloroso um pouco mais intenso para, posteriormente, viver meus dias livre de dores, ou pelo menos de algumas dores que se mostravam crescentes.

    Todavia, admitindo-se que a dor, às vezes, faz-se necessária, por que outras tantas necessidades não dolorosas, também não se manifestam? Não estou sendo pessimistas, sei perfeitamente que existem inúmeras manifestação agradáveis que ocorrem no quotidiano e que, geralmente, passam despercebidas, porém não deveriam ser exatamente essas ampliadas e expandidas a todos os mortais? Não vou falar da regra do aprendizado pelas vias da dor ou do amor, pois já está cristalizada, falo apenas da dor, daquela que nos convida a refletir, entre tantas outras coisas além das mencionadas, mas também da que faz sentir o desejo de morrer, ou seja, da dor limite, da dor que desafia o suportável e o insuportável, da dor absoluta. E acredito que a dor absoluta seja a união da física e da psicológica. Na verdade, até há pouco tempo, sempre considerei a dor psicológica mais potente que a física, entretanto foi mais um golpe da minha ingenuidade, pois dor é sempre dor, seja qual for sua procedência. Não se pode medir a dor dos outros pela própria régua, bem sei, mas tenho convicção de que a dor mais torturante une o físico e o psicológico. Sem desconsiderar a régua de cada um, esses meus dias foram os mais torturantes da minha vida. Mesmo que o conforto familiar não tenha faltado, nos longos períodos de isolamento, em total intimidade com a dor, de alguma forma, me modificaram. Se me tornaram uma pessoa melhor, ainda não sei, por enquanto sinto que mudei.

    Dizem que a dor que já passou não doi mais, mas eu garanto, existem dores do passado que continuam doendo intensamente, nas quais a cura ainda busca a terapia adequada que só a continuidade da vida poderá encontrar a cura definitiva. De qualquer forma, espero que o pior tenha passado, mais alguns dias de repouso e voltarei às atividades, mesmo que ainda tenha pela frente três meses de tratamento intensivo e dezoito meses de acompanhamento, a sensação que tenho é algo indescritível, que mesmo potencializada pelo contraste da intensa dor recente, me enche de coragem de enfrentar com disposição os novos desafios da vida.

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 02/12/2013
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