Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Observações no Trânsito.
 
O carro sempre foi um dos objetos de maior desejo do homem, seja pela utilidade e conforto ou pela vaidade, muitas vezes, inclusive, transformando-se em símbolo de masculinidade e potência. Atualmente o automóvel tornou-se um símbolo de liberdade e poder, tanto para os homens quanto para as mulheres. E carro é o que não falta em nosso país. As fábricas recebem incentivos para produzirem mais e mais, fazendo com que a média nacional do número de carros por habitante cresça a cada ano. As ruas estão cada vez mais entupidas de automóveis facilitando a imprudência, o aumento de acidentes e mortes, sem falar do estresse que é gerado com toda essa confusão.
Boa parte desse desgaste no trânsito deve-se a falta de ruas, estradas e rodovias adequadas, além da falta educação, obviamente. Neste contento, se envolvermos o “poder público” veremos que as campanhas de conscientização e a deficiente formação dos condutores, tão necessárias devido a insuficiente educação geral dos motoristas, são paliativos para amenizar a confusão generalizada do trânsito, especialmente em cidades maiores. Autoridades públicas costumam justificar a ineficiência do trânsito atribuído a culpa ao crescente número de veículos que ingressam diariamente em nossas vias. Justificativa absurda que tenta subestimar a inteligência do cidadão, já que são estas mesmas autoridades que tudo fazem para incentivar a produção e o comércio, a fim de arrecadar mais impostos e desenvolver as cidades e o país.
Hora! Sejamos coerentes, quem incentiva a produção não pode queixar-se do excesso de veículos ou será que pensam que os veículos devem ser produzidos, comercializados e guardados em garagens sem usá-los? Convenhamos, essas mesmas autoridades têm a obrigação de planejar as vias de circulação para atender a demanda produtiva que tanto desejam.
Entretanto, as relações com o carro são muito amplas e até mesmo profundas ,que mesmo abordando algumas não poderíamos dissecá-las neste espaço, porém não posso me furtar de descrever o que percebi num pequeno trajeto que percorri neste último domingo. Primeiro, apesar de estarmos próximo ao Natal, o domingo estava com o trânsito congestionado, com motoristas apressados, irritados como em qualquer outro dia da semana. Acrescenta-se o fato de muitos motoristas inexperientes fazendo barbaridades à vontade, até porque não havia qualquer sinal de agentes do trânsito.
Percebe-se esse tipo de motorista de final de semana, não somente pela inábil condução dos seus veículos, mas especialmente pela aparência dos carros que dirigem, alguns têm impecável cuidado, boa aparência e manutenção enquanto outros pilotam verdadeiras latas enferrujadas. Mas, além disso, destaca-se uma série de adesivos fixados nos vidros. Pode-se ver coisas muito criativas, geralmente de gosto duvidoso como este que não posso deixar de comentar: havia um adesivo enorme fixado no vidro traseiro de um carro modelo da década de setenta, onde estava escrito em letras estilizadas: Garanhão!
Logo pensei que se tratava de um criador de cavalos ou alguém ligado ao manejo destes animais. Mas ao ver o condutor, logo percebi que não devia ser essa a intenção do adesivo. A aparência era indescritível, aliás, qualquer modista não teria nenhuma dificuldade em classificá-lo no grupo dos brega. Os óculos de sol não deixavam qualquer dúvida da intenção do motorista em parecer um garanhão, no sentido de homem conquistador, mulherengo, libidinoso. Imaginem como a minha cabeça voou, comecei a pensar o que levaria um homem ter um adesivo como aquele no carro. Quem sabe algo relacionado a autoestima, vaidade e orgulho. E assim fui fazendo mil raciocínios, que iam do ridículo à admiração, mas por mais que tentasse imaginar as razões que o levaram a utilizar aquele adesivo não consegui encontrar motivos.
Então, tive um insight e percebi que eu nada tinha a ver com aquilo, que por mais que tentasse encontrar uma razão para tanto, a razão simplesmente não precisaria existir. Aquele motorista deveria ter as suas razões e todo o de direito usar aquela palavra em seu carro, além de é claro considerar-se um garanhão, ou o que bem quisesse. Por pouco não caí na velha cilada de condená-lo, embora de alguma forma já o tivesse julgado. Como é fácil e repugnante condenar os outros sem sequer saber quais os motivos, dores, intenções e sentimentos que os envolvem.
Diariamente julgarmos e muitas vezes condenamos sem razão, seja no trânsito ou em outras situações. No trânsito julgamos aqueles carros velhos e enferrujados com som ensurdecedor, cujo valor dos acessórios equivale a um modelo zero Km. Existe ainda a questão da poluição, das paradas indevidas, do abuso dos carros maiores, as incoerências das empresas que tudo fazem para agradar o cliente, mas travam as ruas com seus gigantescos caminhões fazendo entregas em pleno horário do rush. Sem falar dos carroceiros, facilmente julgados, e tantas outras situações do trânsito. É impressionante como temos a facilidade de definir, julgar e condenar os outros. Será falta de capacidade de nos colocarmos no lugar do outro ou soberba? Pense nisso.

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 17/12/2010
Alterado em 21/03/2013
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