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Sandálias da Vaidade.
 

A sandália é um dos símbolos dos freis franciscanos, pois defendem a idéia de viver apenas como necessário. A humildade dos frades fica evidente nas vestimentas populares, mas especialmente pelas sandálias. Aliás, a sandália é um calçado propício para as estações quentes, o que faz com que ela seja tão popular em nosso país. Existem vários modelos, desde as mais tradicionais, aquelas que dizem que não soltam as tiras, passando pelas plásticas até as mais sofisticadas confeccionadas com tecnologia laser.
A popularidade deste calçado é tanta que não existe uma loja de calçado que não tenha um par exposto. Nas ruas, elas são vistas em pés femininos e masculinos. Até há pouco tempo era raro ver um homem calçando sandálias, mas a proliferação dos modelos aliada ao conforto fez com que o número aumentasse cada vez mais, já entre as mulheres, elas sempre reinaram absolutas. Disponível numa infinidade de modelos e cores a sandália transformou-se numa peça soberana, calçando crianças, jovens e idosos.
Não há nada que eu possa dizer sobre as sandálias que tire o status desse calçado do verão ou acrescentar algum prestígio ou algo que a valorize ainda mais. Entretanto, vejo-as cada vez mais como um símbolo de vaidade e não de humildade como originariamente e tradicionalmente eram vistas. Hoje a sandália está mais refinada, fabricada com avançada tecnologia que proporciona maior conforto, bem-estar e embeleza os pés. Na verdade, neste ultimo aspecto, a sandália às vezes não consegue valorizar alguns pés, pois existem pessoas menos favorecidas para o uso deste calçado. Refiro-me àqueles pés que definitivamente não foram feitos para usar sandália, ou talvez ainda não fabricaram modelos adequados para eles. Em alguns pés escapam entre as tiras dedos estirados, como se fossem raízes de uma árvore em solo pedregoso. São tantos dedos que brotam entre as tramas e os vazados, todos sofridos e disformes, que fica difícil imaginar que possa existir algum modelo capaz de embelezar pés com este formato. Além disso, ainda tem aqueles pés com dedos “fujões”, ou talvez apressados, que insistem em avançar a sola da sandália, assim como aquele calcanhar cascudo e às vezes obeso, que mal consegue se equilibrar no salto.
 Diante dessas situações e tantas outras cenas que desmerecem qualquer pé feminino, cabe perguntar porque a insistência em usar sandálias. A primeira hipótese parece ser o conforto, mas basta um pequeno olhar para ver que o desconforto é evidente, que o pé está preso e agoniando entre aquelas tiras. Outra hipótese poderia ser o ditame da moda, uma tendência qualquer, ou a vaidade que é a mais provável. Mulheres perdoem-me, pois nada tenho contra as sandálias, mas usem-nas para realçar ainda mais a beleza de seus pés, sua elegância feminina, mas jamais por vaidade. A elegância feminina complementa-se com a simplicidade e a humildade, portanto, uma linda sandália nem sempre é sinônimo de pé elegante. A beleza não esta na peça de vestuário, mas no conjunto, e nisso reside o estado de espírito e a beleza interior.
Mais importante que um calçado elegante é saber em que chão queremos caminhar, não adianta vestir sandálias de ouro e pisar no lodo da inveja. Mais vale calçar uma sandália de lona e trilhar os caminhos da simplicidade, solidariedade, caridade e amor. O que realmente importa é o conteúdo, a verdadeira essência do que somos e não a embalagem que vestimos. Claro que todos sabem disso, mas quantos têm coragem, força e determinação para não se deixar levar pela vaidade. Sei também que não há nada errado em querer vestir, possuir e usar o que existe de melhor, aliás, é um direito, no entanto tudo isso não deve ser utilizado para ostentação e muito menos para provocar ou causar inveja a alguém menos favorecido. A humildade não esta diretamente ligada a possuir ou usufruir o bom ou do melhor, mas no sentido e forma que utilizado o que possuímos.
Não entendo de moda e sequer quero influenciar alguém, apenas alertar para a presença da vaidade no cotidiano de todos nós. Seja nas sandálias, no vestuário em geral ou nas atitudes e gestos diários, a vaidade vai se tornando um vício que nos afasta da verdadeira razão de viver. Ela nos afasta dos amigos, nos empurra para a competição, o consumismo, a depressão, até chegar à infelicidade. Tentar projetar-se sobre as outras pessoas pelo que se possui é uma atitude infeliz demonstra a pobreza do espírito que habita na pessoa, ou seja, a fraqueza e indisposição em aprender e evoluir espiritualmente. Vangloriar-se em ser humilde é uma demonstração da falta desta virtude, pois basta ser verdadeiro que todos passarão a evidenciar não somente a humildade, mas também toda a beleza de nossa essência.
Por outro lado à vaidade é o desejo de atrair a admiração dos outros, e para isso utiliza-se de todos os artifícios, até mesmo comprar aquela sandália linda que não lhe cai bem no pé. Pessoas vaidosas, isto é possuídas pela soberba e orgulho não dão importância à humildade, no entanto não podemos confundir a vaidade oriunda da boa auto-estima que é benéfica e saudável. O verão esta ai, época propicia para usar sandálias, então, escolha o modelo que melhor lhe agradar, e percorra seu caminho com fé e humildade. Boa semana.
Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 04/12/2010
Alterado em 26/12/2014


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