Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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A última gota.
 
Certamente passava de uma centena de vezes a quantidade de refeições que já haviam feito juntos, entre as quais, muitos jantares românticos, almoços comemorativos e cafés da manhã especiais como aquele que iriam tomar naquela manhã. Foram ao restaurante do hotel, para aproveitar melhor a variedade de guloseimas que estavam sendo oferecidas, deixando a romântica intimidade para depois. Sentaram-se na melhor mesa e começaram a saborear as frutas, quando mais que de repente, ele, enfurecido diz: - Não é possível que você não saiba cortar esse mamão direito. Não acredito que com toda essa idade ainda não consigas tirar descentemente a casca de uma fatia de mamão? Pelo amor de Deus, o que é isso? Olha só o estado que ficou esse mamão parece, até, que foi mastigado e não cortado. Não aguento mais ver isso.
Surpresa e sem entender aquele ataque de fúria do marido começou a chorar. Sempre que comia mamão ela pegava pequenas porções e levava até a boca com delicadeza e tranquilidade, afinal, era uma das frutas que mais gostava. Fazia isso desde que se conheceram, e lá se iam mais de vinte anos. Enfiava a faca na vertical do mamão, torcendo-a um pouco para o lado e assim saltava um naco da casca, espetava-o com o garfo levando-a a boca onde era suavemente degustado. Esse processo se repetiu longos anos, inúmeras vezes e, ele, jamais havia reclamado ou sequer insinuado qualquer incomodo.
 Refeita da crise de choro e envergonhada com a cena em pleno restaurante lotado ela não deixou por menos e expandiu a baixaria. - E você, mesmo depois de velho e barrigudo, até hoje não sabe segurar os talheres direito, come como um porco. Olha para esse seu prato, ta parecendo um cocho. Não agüento mais ver você comento deste jeito, seu estúpido. Levantou-se e saiu apressadamente, sob o olhar de todos.
O que levou aquele homem a reclamar tão veemente numa hora tão inadequada é muito complexo. Para simplificar podemos dizer que ele perdeu a paciência, que foi a ultima gota d’água de algo que ela não suportava. Embora nunca tivesse sido capaz de reclamar ou manifestar qualquer desconforto em relação ao comportamento da esposa, ele não podia mais suportar aquela cena. Não se tratava de falta de amor, ou algum sentimento que não fosse de carinho e afeto, simplesmente ele não podia tolerar mais aquele comportamento. Também não se tratava de um comportamento exótico, anti-social, repugnante ou qualquer coisa que pudesse causar constrangimento, pelo contrário, a mulher portava-se adequadamente não apenas numa mesa de café, mas em qualquer situação, era uma mulher elegante, polida. No entanto, nada disso tinha qualquer importância naquela hora, pois já não suportava mais ver aquela forma de descascar a fruta.
Possivelmente não era somente esse fato que ele vinha sufocando, muito menos o mais incomodo e certamente não desejava explodir com a própria esposa, mas os longos anos de comportamento inadequado diante das situações que o incomodavam se manifestaram num fato banal em uma hora tão inadequada.
Esses rompantes de fúria e indignação são comuns em pessoas que são submetidas a situações ou relacionamentos dominadores, nos quais sentem-se sufocadas, porém estando ligadas por algum outro laço, vão suportando a situação, sufocando os próprios desejos, vontades e personalidade. Sufocar a própria vontade ou simplesmente calar-se ou abster-se de manifestar incômodos e descontentamentos é o mesmo que tomar algumas gotas de veneno que com o passar do tempo vão se acumulando no organismo até nos levar a morte. Obviamente que não podemos reclamar de tudo e de todos, nem querer que o mundo funcione conforme nossos desejos e necessidade, todavia temos o dever de expressar nossa personalidade, manifestando nossas opiniões, pensamentos e vontades, pois são elas que nos fazem diferentes e fundamentalmente servem para que o outro possa medir, avaliar e perceber a pluralidade deste mundo.
Não vou falar de flexibilidade, tolerância e resignação que são sempre importantes nesta hora e fundamentais para uma vida equilibrada, porém não podem ser motivo de submissão. Assim como não podemos reclamar ou querer que os outros tenham “certos” comportamentos ou que façam ou deixem de fazer determinadas coisas se não expressarmos nossa insatisfação. Precisamos aprender a manifestar nossas insatisfações com franqueza e respeito, afim de que o outro possa adequar-se a situação, sem esquecer a liberdade do outro tampouco nosso limite.
Relações prolongadas e intensas estão mais propícias a manifestações de intolerância e submissão, são facilmente evidenciadas nas famílias, entre namorados, locais de trabalho e até mesmo em ambientes sociais. Muitas das frustrações acumuladas em outros ambientes acabam sendo descarregadas nas pessoas mais próximas, em quem geralmente não deveria ser o alvo logo, devemos observar que isso não ocorra sob pena de sufocarmos, bloquearmos o amor que recebemos destas pessoas.
Saber lidar com as nossas incomodações e antecipar-se a última gota para não deixar o copo transbordar é fundamental para uma vida saudável. Lembre-se que a ultima gota só faz o copo transbordar porque ele já esta cheio com tudo o que acumulamos. Boa semana.

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 25/11/2010
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