Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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     Fazer bem feito.

 
     Depois de passar várias horas na feira do livro, com a alma lavada em ver tantos títulos disponíveis e adquirir alguns é claro, eu finalmente parei para descansar as pernas. Enquanto folhava um dos livros, um cheiro irresistível invadiu minhas narinas provocando um alvoroço no meu estômago. Já havia me deliciado com a tradicional pipoca da praça, mas esse cheiro que vinha sei lá de onde era muito mais gostoso, mais peculiar. Comecei a procurar insistentemente a origem daquele cheiro e logo me deparei com uma carrocinha de churros, pois ali estava a fonte daquele cheiro gostoso. Mesmo cansado encarei a fila que se formava diante da carrocinha para enfim saborear aquela delícia.
     A demora já era grande, mas o meu desejo era maior e comecei a ficar inquieto, algumas pessoas desistiam de esperar, mas a vontade era gigantesca e eu permanecia firme na fila. O atendimento era muito lento, ainda havia duas ou três pessoas a minha frente, quando finalmente a humilde senhora da carrocinha de churros me dirigiu a palavra, dizendo que logo faria um bem quentinho para mim. Consenti com um pequeno movimento com a cabeça, enquanto minha boca parecia espumar de tanto desejo. Por fim chegou a minha vez de fazer o pedido. Pedi um churro recheado de doce de leite. Paguei e fiquei aguardando ansiosamente que ela fritasse a massa, enquanto isso a simpática senhora me falou, “bem quentinho é mais gostoso”. Sorri e respondi que minha gula se encarregaria de deixá-lo ainda mais gostoso.
     Ela pegou aquele pequeno pedaço de massa cilíndrica que boiava na panela de gordura e colocou para escorrer. Olhou pra mim e disse, “tem que ficar bem sequinho”. Eu apenas sorri, quase perdendo a paciência, mas aguentei firme podendo, até, sentir a impaciência das pessoas atrás de mim. Ao mesmo tempo em que a ansiedade me castigava, a gentileza e o carinho que aquela mulher preparava o churro me intrigavam. Ela poderia ter vendido uns dez churros se fosse um pouco menos caprichosa, enfim, mais ágil.
     Finalmente ela pegou o churro calmamente e recheou-o com um delicioso doce de leite e eu voltei a sentar-me no banco acolhedor. Delicie-me como nunca, saboreei cada partícula. Naquele momento não havia nada mais importante e que pudesse me dar mais prazer, estava em êxtase, nem mesmo o entusiasmo com os livros que acabara de comprar era capaz de me desfocar do prazer proporcionado pelo churro. Com certeza não era o mais delicioso dos churros, mas certamente era o melhor que eu já havia comido.
     Sou fã deste doce e já provei várias combinações de recheio e coberturas, aliás, conheço os melhores pontos onde se vende esta iguaria. Porém, em nenhum lugar vi alguém se dedicar tanto para fazer um simples churro. Percebi que ela colocava muito carinho e atenção em todas as fases de preparação, era como se ela estivesse fazendo para si mesma comer. A quantidade a ser vendida não tinha importância, era evidente a preocupação com a qualidade do produto e a satisfação dos consumidores. Uma atitude rara hoje em dia, especialmente quando se trata da venda deste tipo de produto em feiras e parques, nos quais se percebe claramente a pressa para vender cada vez mais.
Nessa linha da agilidade e volume de vendas destacam-se tantas redes de comidas e lanches rápidos conhecidas como fast foods, tão atuais nos nossos dias. No entanto, a senhora dos churros parecia desconhecer ou sabiamente ignorar essa questão de alimentação rápida dedicando-se amorosamente ao seu oficio com toda a calma necessária para garantir um bom resultado.
      Resultado que podia se perceber pela sua expressão de satisfação ao ver o contentamento e prazer com que seus clientes consumiam seu produto. Aquela senhora estava fazendo um trabalho exemplar, não somente porque seus churros eram deliciosos, mas porque ela primava em fazer certo sempre, independente de quem fosse o consumidor ou especialmente de aproveitar a ocasião para vender mais. Foi impossível não me questionar sobre aquilo que acabara de vivenciar e porque é tão difícil fazer as coisas com amor e dedicação. Aliás, raramente se faz algo com carinho, geralmente executamos às tarefas mecanicamente com a pura intenção de livrar-se do trabalho, da responsabilidade, totalmente despreocupados com o resultado. Quando nos preocupamos um pouco mais é porque somos obrigados, supervisionados ou vigiados, um lamentável erro que cometemos sem perceber a importância em fazer bem feito em toda e qualquer ocasião. 
     Fazer bem feito e com amor, produz resultados inimagináveis, uma vez que o amor empregado na elaboração do trabalho será captado, sentido por quem for usufruí-lo. Esta também é uma forma de fazer o bem, e espalhar felicidade, porém poucos têm a sensibilidade de perceber, embora todos possam sentir seus efeitos. Claro que existe espaço e a necessidade da rapidez, como as comidas fast food, mas existe também um importante e virtuoso espaço para o slow, não só para o slow food contrapondo-se as comidas padronizadas e rápidas. Precisamos, despertar para essa realidade e aprender a fazer todas as coisas com amor, carinho, atenção, calma e serenidade, espalhando mais satisfação e felicidade a todos que nos cercam. Boa semana.

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 15/11/2010
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