Textos


Herança de trabalho

 

As duas colinas, para quem olhava do centro da planície pareciam dois belos seios femininos e, entre eles, um pequeno córrego cercado de árvores nativas se arrastava pela planície. Quase no topo da colina esquerda, uma pequena habitação de dois cômodos separados por uma pequena cortina, servia de lar para a pequena Ligia. Aos seis anos de idade só conhecia pessoas adultas, ou seja, as únicas pessoas que eventualmente circulavam por aquelas terras, ou eram “viajantes”, ou perigosos andarilhos que seu pai sempre temia. 

Conhecia cada palmo do chão batido daquela pequena casa, o caminho até o rio e o pequeno pátio que antecedia a plantação de milho. O pai dedicava-se a plantação e a criação de algumas cabeças de gado, já a mãe, auxiliava na plantação, na ordenha das vacas e na lida com as galinhas e claro, nos afazeres domésticos.

Uma das maiores diversões da menina Ligia era acompanhar a mãe ao rio para lavar roupas. O local ficava à sombra de uma grande pereira, que na estação despejava folhas e frutos no leito do rio. Ligia adorava ajudar sua mamãe a afastar as frutas que insistiam em se acumular na parte mais rasa, justamente onde a mãe lavava a roupa.

Naquele inicio de outono, as temperaturas ainda muito altas favoreciam as brincadeiras na água. Neste cenário a pequena Ligia, sozinha distraia-se por longas e longas horas. No entanto, um dia desses, a brincadeira foi subitamente interrompida com um grito estridente de sua mãe, fazendo com que a menina, instintivamente se aproximasse rapidamente, mas a mãe a afastou e arrastou-se até a beira do rio gemendo de dor. Ali, deitada no chão, pediu para que a filha lhe alcançasse algumas toalhas que estavam estendidas na grama, logo ali adiante. Foram necessários poucos segundos para apanhá-las, mas momentos inesquecíveis para a criança, que apesar de não saber avaliar a gravidade da situação, pressentia estar diante de algo grave.  Ao se aproximar com as toalhas, viu a mãe chorando, mas com um enorme sorriso estampado na face. Alguns passos depois, percebeu que a mãe segurava um bebê, que foi cuidadosamente envolto em uma daquelas toalhas.

Em seguida, subiram a colina em direção a casa e Ligia, mal conseguia acompanhar os passos da mãe, que literalmente a arrastava colina acima. A casa ainda estava muito longe e Ligia temia não conseguir agüentar o ritmo da mãe. De repente, a mãe largou-lhe a mão, gritou e agachou-se, tudo muito rapidamente. Assustada e nervosa distraiu-se por alguns instantes lembrando do que havia ocorrido lá no rio. Quando voltou a concentrar a atenção no que estava ocorrendo com a mãe, percebeu que ela estava segurando outro bebê nos braços, enquanto o que estava no chão envolto na toalha chorava desesperadamente. Ligia compreendeu o gesto da mãe e alcançou-lhe outra toalha para envolver o outro bebê. Lentamente a mãe acomodou os dois bebês nos braços, lançou um olhar fixo e profundo para a filha e disse:

-Mamãe vai ter que carregar esses bebês, filhinha.Vamos caminhando devagarzinho, você me segue. A menina consentiu com um sinal e seguiram a trilha até chegarem em casa.

Ligia recorda desse dia, como se tivesse acontecido há poucas horas, apesar do longo tempo. O dia que viu seus dois irmãos chegarem ao mundo, nunca será esquecido.

Hoje, Pedro e Paulo, homens feitos, com mais de trinta anos, que cresceram juntos com a irmã na pequena propriedade da colina levam a vida de modo muito diferenciado, que nem parecem gêmeos.

Um ano após, os dois irmãos retornarem do serviço militar obrigatório, Ligia casou-se e foi morar na sede do povoado, que ficava a uns trinta quilômetros.

No mesmo ano, Pedro mudou-se para a capital, a fim de concluir o estudo primário, mas acabou ficando por lá, se tornando doutor. Paulo continuou auxiliando o pai na plantação e desenvolveu a criação de gado. Uma vez por ano, quando Pedro visitava a família, a irmã vinha do povoado, acompanhada pelo marido, para que a família pudesse se reunir.

Alguns anos depois, Pedro levou uma amiga para que seus pais a conhecessem. Foi um escândalo, além da decepção do seu pai, que prontamente “resmungou”:

- Onde já se viu, uma mulher de bem viajar sozinha com um homem! Essa não serve para você, meu filho.

Preconceito injustificável, mas compreensível para a época. Pouco tempo depois, a amiga virou esposa e a decepção do pai parecia não ter fim. Mas nada como o tempo e alguns anos após, para o velho Somomilla, passar a contar os dias, a espera da visita do filho. Gostava de passar longas horas conversando com a nora sobre a Europa e a longa viagem que ela fizera atravessado o atlântico.

As visitas da nora, no entanto, foram ficando cada vez mais espaçadas, não que ela não gostasse das conversas do sogro, pelo contrário, era uma forma de matar a saudade da terra natal e recordar os bons tempos de criança. O problema era que Pedro sentia-se cada vez mais incomodado com o comportamento da família em relação ao seu trabalho. A família sabia exatamente quais eram suas atividades no trabalho, mas insistentemente comparavam seu trabalho com o que eles desenvolviam. Pedro não agüentava mais, ouvir: “Teu trabalho é que é bom. Trabalha todo o dia sentado, na sombra e ainda se queixa...”.

Essa era a forma como a família via seu ganha-pão, uma vez que para eles o que cansava mesmo era o esforço físico, a exposição ao sol escaldante e outras intempéries. No entendimento, especialmente do irmão, o trabalho de Pedro não exigia esforço, era um “descanso só”, já que o horário era determinado e havia descanso nos finais de semana, enquanto ele tinha que alimentar e cuidar do gado vinte e quatro horas por dia, todos os dias.

Pedro, por sua vez, achava que Paulo era quem tinha um trabalho sossegado, já que exigia somente o esforço físico e este podia facilmente ser recuperado com umas horas de descanso e um bom sono. Enquanto ele, não conseguia descansar a cabeça nem mesmo quando dormia. Essa diferença de compreensão do que era o trabalho de cada um, servia para afastá-los cada vez mais, já que compartilhavam poucas coisas e definitivamente as questões de trabalho não era uma delas.

A notícia da chagada do primeiro neto veio do povoado. O velho Somomilla e o filho Paulo passaram alguns dias sozinhos, enquanto dona Virginia, permanecia no povoado auxiliando a filha. A propriedade agora já contava com uma estrutura adequada, com uma bela e ampla casa, equipamentos para a lavoura e o maneio do gado, mas a alegria do patriarca ainda não estava completa. Havia a preocupação com o filho Paulo que trabalhava com ele fazendo aquelas terras prosperassem, mas que não usufruía as conquistas. A única preocupação do filho era com o trabalho e raramente saía da propriedade, quando o fazia era para adquirir produtos no comércio do povoado. O sonho era ver o filho casado, dando-lhe netos para brincar, além de poder ensinar-lhes a arte de trançar vimes e confeccionar pequenos objetos artesanais, coisa que nenhum dos filhos havia mostrado interesse. Um desejo que foi compartilhado apenas com a esposa que via a idade avançar e, via a companhia de uma criança como um santo remédio, até mesmo para suas dores no ciático, pois sempre que a filha trazia o neto para visitá-los, as dores desapareciam.

O desejo dos pais logo se espalhou pela rara vizinhança chegando até o povoado. Lá morava a viúva Tereza, com a filha Joana. A privilegiada situação financeira de Paulo foi atrativo suficiente para as duas vislumbrarem o casamento de Joana, como a solução de seus problemas financeiros. A ponte para que o objetivo das duas pudesse ser alcançado foi feita através de Ligia, que morava no povoado. Pouco tempo depois, Joana acompanhava a nova amiga a casa dos pais, para conhecer aquele que viria a ser seu marido. Apesar do pouco entusiasmo de Paulo, o casamento aconteceu poucos meses depois, e agora a felicidade da família Somomilla parecia estar completa. Na verdade estaria se não fosse a pouca inclinação de Paulo para atender os desejos carnais da esposa Joana. Ela já havia manifestado seu desconforto na relação por várias vezes, apesar dos sábios e prudentes conselhos da mãe e sogra. Mas com o passar do tempo, as duas já não sabiam o que aconselhar, além da ansiedade dos pais do rapaz por um neto, fazia com que os familiares temessem o fim do casamento.

 A última esperança veio de Tereza, que presenteou a filha com um lindo e ousadíssimo conjunto de roupas intimas vindo da França, confeccionado em seda pura, com detalhes em fina renda. As instruções de quando e como usar as delicadas peças foram passadas pela própria mãe, após consultar uma amiga, cujas más línguas diziam já ter vivido seus bons tempos “distraindo” um pelotão de fronteira. Seja como for, Joana, que já era bastante ousada, tratou de assimilar as novas e “avançadas” técnicas de sedução, a fim de satisfazer e assim quem sabe, fazer com que o marido pegasse “um pouco mais gosto para a coisa”.

Todas as técnicas foram empregadas, mas o marido privilegiava o trabalho ao lazer com a esposa, ou seja, preferia cortar trigo, debulhar milho e tratar os animais que fornicar com a esposa. Não que a esposa não fosse bela e confortável para a atividade sexual, muito pelo contrário, Joana era uma mulher completa e preparada para satisfazer todos os desejos carnais masculinos.

A insistência de Joana em provocar situações propícias, aliadas a ousadia com que ela aproveitava as raras oportunidades em que Paulo se mostrava disposto ao sexo foi fundamental para despertar no marido maior interesse pela “atividade”. Talvez o principal fator para tanto, tenha sido a habilidade que essa mulher tinha em utilizar seus apreciáveis atributos para confortar o marido. Seja como for, para a felicidade de todos, alguns anos depois, nasceu o pequeno Elizio.

Pedro havia mudado para o Uruguai e já era pai de um lindo casal de crianças. Já a irmã Ligia, a cada filho que nascia, era paparicada ainda mais pelo marido, cujos filhos e negócios prosperavam a passos largos.

 A idade avançada de Virginia e o marido pareciam não interferir na disposição e dedicação ao neto. Elizio crescia e a vitalidade dos avós diminuía e assim que ele completou sete anos, Virginia deixou definitivamente a família, trazendo grande tristeza a todos. O velho não agüentou a perda e poucos meses depois foi ao encontro da companheira, deixando a família ainda mais triste. Pedro que viera do Uruguai para se despedir da mãe, não pode fazer o mesmo com o velho pai, pois estava em viagem pela Europa.

Joana, que definitivamente havia despertado todo o desejo do marido teve mais sete filhos, mas perdeu a mãe um mês após o nascimento Joel, seu último filho. A grande quantidade de sobrinhos estimulou o tio Pedro a presentear a família do irmão com um rádio. Um precioso e raro presente vindo da Europa por encomenda, um valioso “instrumento”, que passou a ser a diversão da família. Diariamente, após o patriarca Pedro terminar a lida na lavoura, os filhos mais velhos, liderados por Elizio, terem cuidado dos animais, os mais jovens de volta da escola e, enquanto Joana preparava o jantar para a família ouviam atentamente a hora da Ave Maria. Após o jantar, Pedro e Joana dançavam ao som do rádio e, ao redor, além da bagunça, os filhos ensaiavam alguns passos.

Assim, estas crianças cresceram e concretizaram muitos sonhos de prosperidade, fundamentados no valor do próprio trabalho e na autoconfiança, herança dos avós.

 

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 04/12/2008


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