Jair A. Pauletto
O Singular do Plural
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Eternas saudades

 

O vento gelado soprava os longos cabelos acobreados e levemente encaracolados, revelando detalhes daquela face poética. Apressadamente procurava manter o pesado casaco, fechado na altura do peito, porém, deixando transparecer uma parte da blusa escura, na altura do colo, terminando com uma gola alta, contornada por uma renda fina que lhe protegia o pescoço. Era o que o casaco deixava a mostra, ao menos na parte superior do abdômen, mas não era necessária muita imaginação, para perceber que aquela blusa colada ao corpo escondia belos e exatos seios, abrigados em bojos rendados.

Deste ponto em diante, a imaginação tornou-se extremamente ousada e a composição química do organismo sofreu as últimas transformações. Digo as últimas transformações, porque as primeiras haviam iniciado no primeiro olhar, cuja atenção fora primeiramente capturada pela visão da metade inferior daquele estonteante corpo, bem como, onde os detalhes começaram a ser melhor observados e os exercícios da imaginação se aprofundando inundando o corpo de desejo.

Após essa rápida descrição do que se podia ver e um pouco do que foi imaginado, preciso descrever o que o casaco deixava a mostra da cintura para baixo. Um único botão que mantinha o caso fechado ficava ali na linha da cintura. A ação do vento fazia o casaco voar livremente, o que permitia a visualização detalhada da mini-saia e das belas pernas protegidas por meias da cor roxa, que pareciam ser de seda ou de uma fibra sintética muito elegante. Talvez aquela meia fosse da cor lilás, ele não sabia distinguir claramente as duas cores, de qualquer forma, fosse roxo ou lilás, era uma cor bonita e muito usada naquele ano. O importante, caro leitor, é que foram aquelas meias que despertaram sua atenção para àquela mulher. Foram justamente elas, as meias, que motivaram toda essa narrativa.

As meias, claramente delicadas, eram tramadas de forma muito espessa parecia proteger adequadamente as pernas daquele frio, uma vez que lembravam ligeiramente as calças de cotom, aquelas que grudam no corpo marcando os mínimos detalhes, assim ficavam as meias, naquele par de pernas. Pernas que pareciam ter sido esculpidas por Michelangelo ou milimétricamente desenhadas por um famoso designer, utilizando-se dos mais avançados recursos de computação.

Mas voltemos as meias roxas, que tanto impressionaram o jovem Gustavo. Apesar de espessas, deixavam clara a perfeição do seu conteúdo, mas, sobretudo, pareciam convidar o olhar para admirá-las. O problema é que o olhar é o maior estimulante do desejo, e este, quando não realizado é insuportavelmente frustrante. Àquelas meias era um sinal claro da elegância daquela mulher, que em poucos segundos, já havia se transformado em “deusa”, digna das maiores juras de amor e devoção.

Mais uma vez faz-se necessário esclarecer que era uma mulher naturalmente charmosa, aquele tipo de mulher que nasceu para ser admirada, que sabe que é desejada, mas que acrescenta uma pitada de malicia em cada olhar, tudo isso sem qualquer traço de vulgaridade, pelo contrário, a elegância e o bom gosto escorriam a cada sorriso.

Diante desta mulher, com as pernas envoltas naquelas meias roxas, a imaginação de Gustavo encontrou o terreno adequado para se manifestar. Após observar a harmonia dos tornozelos, pernas, joelhos e as coxas enchendo aquela mini-saia numa perfeita harmonia entre as formas e a elegância das vestes, o pensamento voou para debaixo da mini-saia, mais especificamente sob o roxo e encontrou uma linda calcinha. Instantaneamente viu cor, modelo e a forma que o conteúdo moldava.

Era uma calcinha com detalhes em rendas transparentes, mas a beleza estava no caimento, que tornava o seu conteúdo ainda mais perfeito e desejável. Começou a sentir a sensação daquela mistura de sedas e rendas com a pele macia em suas mãos. Podia sentir as mãos apertando aquelas nádegas rijas tão firmemente, que o espaço entre os dedos era preenchido por aquelas carnes macias. Era uma sensação gostosa, inexplicável e real em sua mente. Aliás, este é um prazer capaz de levar muitos homens a cometerem várias loucuras. Alguns acabam sendo levados à ruína financeira por este vício, já outros se submetem como escravos aos desejos e vontades de suas amadas. Existem também os que são incapazes de administrar suas emoções e chegam ao crime, ou ainda, são levados a belas e ousadas declarações de amor. Seja pela satisfação dos próprios desejos ou pela magia que as mulheres possuem e que deixam os homens enfeitiçados, capazes de atitudes extremas. Elas obviamente sabem disso, porém algumas, aquelas um pouco mais malvadas utilizam-se de seus encantos e manipulam os homens ao bel-prazer.

Seria um crime parar aquele “sonho”, para pensar em qual grupo aquele homem enfeitiçado pela beleza daquela mulher poderia se encaixar, até porque, possivelmente não fosse nenhum desses, pois havia um grupo significativo de homens que se recusavam a estes pensamentos, só para evitar sofrimento, pois sabem conscientemente que nunca poderiam ter acesso àquela qualidade de “delícias femininas”. Não eram pensamentos que poderiam ser classificados como nobres, mas que brotavam do seu inconsciente humano e precisavam abrir passagem, como tantos outros pensamentos mundanos que invadem a cabeça de homens e mulheres e que são guardados intimamente por razões pessoais ou regras morais.

Caro leitor é neste ponto que os pensamentos oriundos das observações das partes abaixo da linha da cintura devem ser juntados aos originados pela parte superior, pois tudo se passou naquela fração de tempo em que ele a avistou do outro lado da esquina até o momento do atropelamento, justamente quando seu pensamento estava compondo o conjunto entre a calcinha e o bojo que envolvia os seios.

O elevado grau de substância despejadas no sangue pelos eletrizantes pensamentos desencadeados pela meia roxa ajudaram a anestesiar a dor até a chegada ao HPS, mas não foi suficiente para mantê-lo neste mundo.

Imagino que das inúmeras formas de partir, essa deva pertencer ao grupo das mais suaves, digo isso pelo fato de Gustavo ter despertado no outro lado, pensando estar diante daquela meia roxa, quando na realidade estava diante do roxo da fita, que trazia a inscrição; eternas saudades.

 

Jair A Pauletto
Enviado por Jair A Pauletto em 20/08/2008
Alterado em 26/07/2012
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